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Carlos Ruiz Zafon
Por Armando Ribeiro
Conheci Carlos Ruiz Zafón tarde, em 2019. Há escritores que encontramos no momento certo; com ele, tive a sensação de chegar atrasado a uma cidade que já me esperava havia anos. Entrei por O Cemitério dos Livros Esquecidos e, fascinado, li depois todas as suas obras. A cada livro, crescia meu espanto diante de sua capacidade de criar personagens: pessoas tão vivas que pareciam continuar suas conversas quando eu fechava as páginas.
Para mim, Zafón foi o maior romancista do início do século XXI. Sei que uma afirmação assim convida ao debate, mas não nasce de uma lista de vendas. Nasce da experiência de leitura. Poucos autores conseguiram reunir com tamanha força o prazer de contar uma história, a ambição de construir um universo literário e a coragem de perguntar o que resta de nós quando a memória começa a desaparecer.
Nascido em Barcelona, em 1964, Zafón trabalhou com publicidade antes de se dedicar à literatura. Mais tarde viveu em Los Angeles, mas nunca deixou de regressar, pela escrita, à cidade onde nasceu. Sua Barcelona literária é feita de ruas úmidas, livrarias, palacetes e portas que parecem conduzir a outros tempos. É também uma cidade ferida: a violência política, o medo e os silêncios do passado atravessam a vida de seus personagens. Nesse encontro entre imaginação e memória, sua escrita ganhou profundidade. O mistério atrai o leitor; a humanidade de quem o habita o faz permanecer.
Comecei pela quadrilogia: A sombra do vento, O jogo do anjo, O prisioneiro do céu e O labirinto dos espíritos. Ainda me espanta o que Zafón realizou em A sombra do vento. Como reunir tantos personagens, segredos, destinos cruzados e histórias dentro de histórias sem perder o coração do romance? Ele nos conduz por um labirinto, mas sabe exatamente por que desejamos seguir adiante. No centro de tudo está a família Sempere, guardiã de livros e de afetos, lembrando que preservar uma história também pode ser um ato de amor.
E então há Fermín Romero de Torres, meu personagem preferido. Sua inteligência veloz e seu humor poderiam bastar para torná-lo inesquecível. Mas Fermín é muito mais: traz no corpo e na memória as marcas da crueldade e, ainda assim, insiste na amizade, na lealdade e na alegria. Zafón disse que Fermín era uma parte dele. Gosto de pensar que talvez esteja aí uma das chaves de sua literatura: a possibilidade de responder à escuridão sem entregar a ela a última palavra.
Depois da quadrilogia, voltei às obras juvenis. Li O príncipe da névoa, O palácio da meia-noite e As luzes de setembro, reunidos como a Trilogia da Névoa, além de Marina. Não encontrei ali apenas os primeiros passos de um escritor que viria a amadurecer. Encontrei um autor que já sabia despertar o assombro, criar atmosferas e fazer da infância e da juventude lugares onde a beleza convive com a perda. A névoa, os pactos, os casarões e os enigmas já anunciavam aquele barcelonês capaz de transformar cenários em presença e personagens em lembrança. Em Marina, sobretudo, senti como o fantástico podia servir a uma história profundamente humana.
Talvez seja essa a grandeza intelectual de Zafón: ele não tratava a imaginação como fuga da realidade. Seus romances nos fazem pensar no poder de quem controla as histórias, no perigo do esquecimento e no preço de amar alguém em um mundo sujeito à perda. Ao mesmo tempo, jamais exigem que o leitor sacrifique o encantamento em nome dessas questões. Zafón confiava tanto na inteligência quanto na emoção de quem o lia.
Sua morte, em 2020, aos 55 anos, deixou um vazio prematuro na literatura espanhola e na literatura mundial. Para quem o conheceu tão pouco antes, como eu, a notícia trouxe também a dor particular de perceber que aquela descoberta não poderia se tornar a expectativa de um próximo romance. Restavam os livros. E eu ainda não estava pronto para me despedir.
Foi com esse sentimento que li A cidade de vapor, a reunião póstuma de seus contos. Minha leitura foi uma leitura de luto. Cada história parecia oferecer mais alguns minutos na companhia de uma voz que já não voltaria a escrever para nós. Encontrei novamente suas sombras, sua delicadeza e seus ecos do universo do Cemitério. Mas senti, acima de tudo, gratidão: pelo mundo que ele criou e por ter podido habitá-lo, mesmo tendo chegado tarde.
Hoje entendo melhor a emoção daquela primeira leitura. Zafón escreveu sobre livros ameaçados pelo esquecimento e, ao fazê-lo, criou personagens que dificilmente esqueceremos. Daniel, os Sempere, Fermín e tantos outros continuam a nos esperar cada vez que abrimos suas páginas. O escritor partiu cedo demais. Sua Barcelona, porém, permanece acesa.

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