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Entre o Relógio e o Abismo!

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Uma reflexão sobre poder, inteligência artificial, China, Estados Unidos, Rússia, Oriente Médio e o lugar do Brasil em um mundo perigosamente instável.

por Armando Ribeiro

 

Entre muitas coisas que gosto de fazer, uma delas é acompanhar canais do YouTube dedicados à defesa, à história militar e à geopolítica. Entre eles está o Canal Arte da Guerra, apresentado pelo comandante Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha, cujo trabalho procura analisar questões militares e estratégicas para além das explicações superficiais oferecidas pelas notícias cotidianas.

Mas assistir a uma análise é apenas o começo. Gosto de pesquisar, confrontar opiniões e percorrer livros que abordam um assunto que muito me interessa: a transformação da ordem mundial e os riscos produzidos pelo encontro entre tecnologia, poder econômico, ambições nacionais, conflitos religiosos e fragilidade institucional.
 

Esse interesse levou-me a Sobre a China e Ordem Mundial, de Henry Kissinger; Jerusalém: A Biografia, de Simon Sebag Montefiore; 90 Segundos para o Apocalipse: O Grande Reset e a Nova Ordem Mundial, O Teatro das Sombras e A Jogada Final: Tecnologia e Política na Era da Desinformação, de Daniel Lopez.
 

Também me levou a ouvir vozes muito diferentes entre si: Noam Chomsky e sua crítica ao poder norte-americano; Aleksandr Dugin e sua defesa de uma ordem multipolar; analistas militares preocupados com a guerra convencional; especialistas em inteligência artificial; economistas; historiadores; diplomatas e estudiosos das religiões.
 

Nenhum desses autores deve ser transformado em profeta infalível. Kissinger observa o mundo a partir do realismo diplomático norte-americano; Chomsky denuncia a violência escondida sob a linguagem humanitária das grandes potências; Dugin procura oferecer uma fundamentação filosófica para o projeto eurasiático russo; Montefiore mostra como religião, memória, território e poder tornaram Jerusalém uma cidade disputada durante milênios.
 

Lidos em conjunto, esses autores não oferecem uma resposta definitiva. Oferecem algo mais importante: diferentes janelas para observar a mesma tempestade.

 

O desafio não é encontrar um autor que explique tudo. É aprender a reconhecer o que cada autor consegue enxergar — e também aquilo que sua posição o impede de ver.
 

Observação: os acontecimentos conjunturais mencionados neste artigo foram considerados até 23 de setembro de 2026. Em geopolítica, alianças, frentes militares e negociações podem mudar rapidamente.
 

A ordem mundial nunca foi realmente mundial
 

Em Ordem Mundial, Henry Kissinger parte de uma constatação desconfortável: nunca existiu uma ordem verdadeiramente universal. O que chamamos de “ordem mundial” foi, na maior parte da história, a ampliação de experiências regionais de poder.
 

A Europa produziu o modelo do equilíbrio entre Estados soberanos. A China imperial compreendia-se como o centro civilizacional de uma ordem hierárquica. O mundo islâmico desenvolveu sua própria concepção de comunidade política e religiosa. Os Estados Unidos associaram poder nacional, mercado, democracia liberal e a pretensão de uma ordem baseada em regras.
 

O problema aparece quando sistemas diferentes deixam de permanecer separados e passam a disputar o mesmo espaço global.

Em Sobre a China, Kissinger mostra que a estratégia chinesa não pode ser compreendida apenas pelos critérios ocidentais. Sua leitura procura explicar a longa duração do pensamento político chinês, a diplomacia do Império do Meio, o trauma das intervenções estrangeiras, a aproximação sino-americana e a ascensão econômica iniciada com Deng Xiaoping.
 

A China não pretende apenas participar de uma ordem construída pelo Ocidente. Procura aumentar sua capacidade de definir as regras, controlar tecnologias estratégicas, proteger rotas comerciais, garantir acesso a energia e matérias-primas e ampliar sua influência sobre instituições internacionais.
 

A disputa entre Estados Unidos e China não é, portanto, somente uma guerra tarifária. É uma disputa pela infraestrutura do futuro: semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, energia, terras raras, sistemas financeiros, cadeias produtivas, satélites, portos e padrões tecnológicos.
 

Quem estabelece o padrão tecnológico não vende apenas um produto. Define o ambiente dentro do qual os demais países precisarão funcionar.
 

Kissinger, Chomsky e Dugin: três mapas do poder
 

Henry Kissinger, Noam Chomsky e Aleksandr Dugin representam perspectivas muito diferentes.

Kissinger pensa em termos de equilíbrio entre potências. Seu interesse central é a estabilidade possível em um mundo onde nenhum Estado possui força suficiente para impor sozinho uma ordem duradoura.
 

Chomsky olha para o discurso das potências e pergunta quais interesses econômicos e estratégicos estão escondidos sob expressões como “segurança”, “democracia”, “estabilidade” e “intervenção humanitária”. Em Quem Manda no Mundo? e Estados Fracassados: O Abuso do Poder e o Ataque à Democracia, ele sustenta que os Estados Unidos frequentemente aplicam aos adversários princípios que não aplicam a si mesmos.

Sua contribuição é indispensável para identificar a distância entre a linguagem moral e a prática imperial. Sua limitação pode surgir quando a crítica à hegemonia americana não concede peso suficiente à natureza autoritária ou expansionista de seus adversários.
 

Aleksandr Dugin, frequentemente chamado pela imprensa de “filósofo de Putin”, deve ser abordado com cuidado. Essa expressão pode exagerar sua influência direta sobre cada decisão do Kremlin. Entretanto, Dugin é importante como formulador de uma visão eurasianista, antiliberal e multipolar.
 

Em A Quarta Teoria Política, ele propõe superar liberalismo, comunismo e fascismo por uma nova teoria baseada em identidades civilizacionais, tradição, território e multipolaridade. Seu pensamento ajuda a compreender parte da linguagem utilizada para justificar a resistência russa à ordem liberal liderada pelos Estados Unidos. Isso não significa aceitar suas conclusões, muito menos transformar sua filosofia em justificativa automática para invasões ou anexações.
 

Ler Dugin não exige concordar com ele. Exige compreender que a Rússia não interpreta sua disputa com o Ocidente apenas como conflito territorial. Ela a apresenta como confronto entre civilizações, concepções de soberania e projetos de mundo.

Colocados lado a lado, os três autores revelam um triângulo:
 

  • Kissinger pergunta como preservar o equilíbrio;

  • Chomsky pergunta quem se beneficia da ordem existente;

  • Dugin pergunta qual civilização terá o direito de definir o futuro.
     

Tecnocracia: quando os meios começam a determinar os fins
 

Tecnocracia é mais do que o governo de especialistas. É a tendência de transferir decisões políticas e morais para sistemas técnicos, burocracias, indicadores, plataformas, algoritmos e estruturas que não dependem diretamente do voto popular.

Toda sociedade complexa precisa de conhecimento especializado. O problema começa quando escolhas carregadas de valores são apresentadas como decisões meramente técnicas.
 

Uma taxa de juros, uma política sanitária, um sistema de vigilância, um mecanismo de moderação digital ou uma meta ambiental podem envolver estudos técnicos legítimos. Entretanto, também distribuem benefícios, riscos, liberdade e poder. Quando o debate político é substituído pela afirmação de que “os dados decidiram”, alguém deixa de responder pela decisão.
 

A inteligência artificial intensifica esse dilema. Ela pode ampliar diagnósticos médicos, prever crises, aumentar a produtividade e melhorar serviços públicos. Também pode produzir vigilância em escala inédita, selecionar o que as pessoas veem, manipular emoções, construir perfis políticos, automatizar sistemas militares e concentrar poder em governos e empresas que controlam dados e capacidade computacional.
 

A tecnocracia contemporânea não precisa apresentar-se como ditadura. Pode chegar como comodidade.

Entregamos nossa localização porque o aplicativo facilita o caminho. Entregamos preferências porque a plataforma oferece recomendações. Entregamos voz, rosto, relações pessoais e hábitos porque os serviços parecem gratuitos. O resultado é a formação de um conhecimento sobre a população que nenhum império antigo jamais possuiu.
 

O Grande Reset, Davos, Bloomberg e Bilderberg
 

O debate sobre tecnocracia frequentemente envolve o Fórum Econômico Mundial, o Grande Reset, o Fórum da Nova Economia da Bloomberg, o Grupo Bilderberg, grandes instituições financeiras e famílias historicamente influentes.

É necessário separar fatos de especulações.
 

O Grande Reset foi apresentado publicamente pelo Fórum Econômico Mundial em 2020 como uma proposta de reconstrução econômica pós-pandemia, com ênfase em sustentabilidade, transformação tecnológica, cooperação público-privada e revisão do capitalismo. Não é uma expressão inventada pelos críticos; foi o nome assumido pela própria iniciativa.
 

É legítimo perguntar quem define essa reconstrução, quem participa das decisões, quais interesses empresariais estão presentes e como propostas globais afetam soberanias nacionais. Entretanto, reconhecer a influência dessas redes não equivale a provar a existência de um comando mundial único e secreto.
 

A Bloomberg é uma empresa de informação financeira, dados e comunicação. Seu Fórum da Nova Economia reúne dirigentes políticos, empresariais e econômicos e foi pensado como espaço internacional comparável a Davos.

O Grupo Bilderberg, por sua vez, promove encontros reservados entre figuras políticas, empresariais, acadêmicas e militares. O caráter fechado dessas reuniões justifica questionamentos sobre transparência, acesso e influência. Mas influência não é sinônimo automático de controle absoluto.
 

O mesmo cuidado deve ser aplicado às famílias com presença histórica em bancos, energia, indústria, mídia ou política. Redes familiares podem preservar capital, influência e acesso durante gerações. Isso é objeto legítimo de pesquisa histórica e econômica. Outra coisa é atribuir a uma família específica todos os acontecimentos mundiais sem documentos, mecanismos demonstráveis ou evidências verificáveis.
 

O poder contemporâneo é concentrado, mas também fragmentado. Governos, fundos, bancos, empresas tecnológicas, serviços de inteligência, organizações internacionais, conglomerados de mídia e complexos militares cooperam em alguns assuntos e entram em conflito em outros.
 

Não há apenas uma mesa de xadrez. Há várias mesas, e alguns jogadores participam de mais de uma.

A inteligência artificial e a guerra das narrativas

Em O Teatro das Sombras e A Jogada Final: Tecnologia e Política na Era da Desinformação, Daniel Lopez chama atenção para um campo de batalha que já não se limita ao território físico. A disputa acontece também no ambiente informacional.

Narrativas não são acessórios da guerra. Elas ajudam a determinar:
 

  • quem será reconhecido como agressor ou vítima;

  • quais mortes receberão visibilidade;

  • quais sanções parecerão legítimas;

  • quais intervenções serão justificadas;

  • quais governos manterão apoio popular;

  • quais versões serão preservadas pela memória coletiva.
     

A inteligência artificial tornou essa disputa mais perigosa. Imagens, vídeos, vozes e documentos podem ser fabricados em escala industrial. Redes automatizadas podem simular apoio popular, espalhar versões contraditórias e tornar impossível distinguir rapidamente o acontecimento de sua fabricação.
 

O objetivo da desinformação nem sempre é fazer o público acreditar em uma mentira determinada. Pode ser levá-lo a não acreditar em mais nada.
 

Quando toda imagem pode ser falsa, o verdadeiro criminoso ganha uma defesa conveniente: afirmar que a prova autêntica foi produzida por inteligência artificial.
 

A crise deixa de ser apenas informacional. Torna-se epistemológica: como saber o que sabemos?

O relógio nuclear volta a avançar
 

O título 90 Segundos para o Apocalipse, de Daniel Lopez, remete ao Relógio do Juízo Final, criado pelo Bulletin of the Atomic Scientists. Quando o livro foi publicado, o relógio estava a 90 segundos da meia-noite.
 

Em janeiro de 2026, os cientistas moveram o indicador para 85 segundos da meia-noite, a posição mais perigosa de sua história. Foram considerados o enfraquecimento dos mecanismos de controle de armas, os conflitos internacionais, a retórica nuclear, a inteligência artificial aplicada a sistemas militares, a desinformação, os riscos biológicos e a crise climática.
 

O SIPRI também advertiu que os Estados voltaram a tratar armamentos nucleares como instrumentos centrais de poder nacional, enquanto aumentam os riscos de erro de cálculo e escalada. O fim do tratado New START retirou o último grande marco bilateral que limitava os arsenais estratégicos de Estados Unidos e Rússia, países que, juntos, concentram cerca de 90% das armas nucleares mundiais.

O maior perigo talvez não seja uma decisão deliberada de destruir o planeta. Pode ser uma sequência de erros: um alerta interpretado incorretamente, um ataque convencional confundido com preparação nuclear, um sistema automatizado que comprime o tempo disponível para avaliação ou uma liderança pressionada a reagir antes de confirmar os fatos.
 

A IA pode tornar a defesa mais rápida. Também pode tornar o erro mais veloz do que a prudência humana.

Rússia, Ucrânia e o risco de envolver toda a OTAN

A guerra entre Rússia e Ucrânia tornou-se um conflito de desgaste, tecnologia, logística, indústria e narrativas.

A Ucrânia depende do apoio financeiro, militar e de inteligência de países da OTAN. A Rússia mobiliza recursos próprios, relações com parceiros externos, capacidade industrial e sua posição de potência nuclear.

A tensão cresce sempre que armas fornecidas por países ocidentais alcançam território russo, quando forças russas se aproximam de fronteiras da Aliança ou quando incidentes ocorrem no Báltico e no espaço aéreo europeu.

Isso não significa que a entrada direta de toda a OTAN seja inevitável. Significa que existem mecanismos capazes de ampliar o conflito: erro de cálculo, ataque a um país-membro, sabotagem de infraestrutura, confronto aéreo, incidente marítimo ou interpretação equivocada de uma operação militar.
 

Em setembro de 2026, o governo Trump sancionou uma nova legislação para ampliar a pressão econômica sobre a Rússia, atingindo setores de energia, defesa e a chamada frota clandestina de petroleiros.

Sanções podem reduzir recursos disponíveis para uma guerra, mas também podem aproximar blocos rivais, ampliar mercados alternativos e transferir custos para terceiros. A pergunta central permanece: como pressionar Moscou sem transformar a guerra em confronto direto entre potências nucleares?
 

Drones: a democratização do poder destrutivo
 

Os drones modificaram profundamente o cenário bélico.

Equipamentos relativamente baratos podem localizar alvos, corrigir artilharia, atacar blindados, transportar explosivos, vigiar fronteiras e atingir infraestrutura a centenas de quilômetros.
 

A consequência é uma inversão econômica: um drone de baixo custo pode destruir um sistema militar que vale milhões. Pequenos grupos adquirem capacidades que antes pertenciam somente a Estados.
 

Na Ucrânia, drones tornaram-se parte cotidiana da guerra. No Oriente Médio, são empregados por Estados e organizações armadas. No Mar Vermelho, mísseis e drones ameaçam navios comerciais e obrigam potências a gastar armamentos sofisticados para interceptar equipamentos muito mais baratos.
 

O SIPRI considera que mísseis e veículos aéreos não tripulados assumiram posição central nas estratégias militares contemporâneas.

O próximo passo é a autonomia crescente. Quando algoritmos ajudam a identificar, selecionar e atacar alvos, torna-se urgente perguntar onde permanece a responsabilidade humana.

Quem responde por um erro letal cometido por uma máquina: o programador, o comandante, o fabricante, o governo ou ninguém?

A nova corrida espacial
 

A corrida espacial deixou de ser apenas disputa por prestígio científico.

Satélites controlam comunicação, navegação, previsão meteorológica, mercados financeiros, agricultura, logística, monitoramento militar e funcionamento de armamentos. Uma guerra entre grandes potências poderia começar na Terra e rapidamente alcançar a infraestrutura orbital.
 

Estados Unidos, China, Rússia, Índia e empresas privadas competem por sistemas de lançamento, constelações de satélites, comunicações seguras, observação terrestre e presença lunar.

Quem controlar a infraestrutura espacial possuirá vantagens econômicas e militares extraordinárias. Mas quanto maior a dependência, maior a vulnerabilidade.
 

Uma sociedade conectada pode ser tecnologicamente poderosa e, ao mesmo tempo, extremamente frágil.

Europa: riqueza, cansaço e perda de centralidade
 

O arrefecimento europeu possui várias causas combinadas:

  • envelhecimento populacional;

  • baixo crescimento da produtividade;

  • dependência externa de energia e matérias-primas;

  • perda de competitividade em setores tecnológicos;

  • pressão fiscal sobre Estados de bem-estar social;

  • aumento dos gastos militares;

  • fragmentação política;

  • dificuldade de formular uma estratégia comum diante de Estados Unidos, Rússia e China.
     

A Europa continua sendo um dos maiores centros econômicos e culturais do mundo. Entretanto, já não possui o mesmo peso relativo que detinha no século XX.
 

A guerra na Ucrânia obrigou os europeus a reconsiderar sua segurança. O gasto militar europeu cresceu significativamente, enquanto recursos necessários à inovação, à infraestrutura e à proteção social passaram a competir com as despesas de defesa. O SIPRI registrou forte crescimento dos gastos europeus em meio à militarização global.
 

A Europa enfrenta uma escolha difícil: permanecer dependente da proteção estratégica dos Estados Unidos ou construir maior autonomia militar, tecnológica e energética. Ambas as alternativas possuem custos elevados.

Trump e a política da pressão
 

Donald Trump enxerga a política externa principalmente por meio de força, negociação, tarifas, vantagens estratégicas e reciprocidade.

Sua abordagem desconfia de instituições multilaterais quando elas parecem limitar a liberdade de ação norte-americana. Ao mesmo tempo, exige que aliados assumam parcela maior dos custos de defesa.
 

Trump procura recuperar capacidade industrial, reduzir dependências estratégicas e utilizar o acesso ao mercado norte-americano como instrumento de pressão.
 

Essa política pode obrigar parceiros a negociar. Também pode produzir ressentimento, incentivar retaliações e acelerar a formação de redes comerciais que procuram diminuir a dependência dos Estados Unidos.
 

A força de uma potência não se mede apenas pela capacidade de impor custos. Mede-se também pela quantidade de países que desejam permanecer ao seu lado.
 

Israel, Hamas e as múltiplas guerras do Oriente Médio
 

Jerusalém: A Biografia, de Simon Sebag Montefiore, ajuda a compreender por que a região não pode ser interpretada apenas pelas notícias mais recentes.
 

Jerusalém é sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. Foi conquistada, destruída, reconstruída, transformada em símbolo e utilizada por impérios, dinastias, movimentos religiosos e nacionalismos. Montefiore mostra como fé, memória, sangue, território e identidade se acumularam sobre o mesmo espaço durante aproximadamente três milênios.
 

O conflito entre Israel e Hamas precisa ser analisado em várias dimensões simultâneas.

O ataque do Hamas contra civis israelenses em 7 de outubro de 2023 constituiu terrorismo e produziu um trauma profundo em Israel. A resposta militar israelense provocou enorme destruição em Gaza, morte de civis, deslocamentos e uma crise humanitária de grandes proporções.
 

Reconhecer o direito de Israel à segurança não obriga ninguém a considerar toda ação militar israelense legítima. Defender a dignidade e os direitos dos palestinos não exige justificar o terrorismo do Hamas.
 

Quando cada lado transforma toda a população do outro em extensão do inimigo, a política cede lugar à punição coletiva.

O conflito também ultrapassa Israel e Hamas. Envolve o Hezbollah no Líbano, a influência iraniana, milícias no Iraque e na Síria, os Houthis no Iêmen, países árabes, Turquia, Estados Unidos, Rússia e China.
 

Cada ator possui objetivos próprios. A solidariedade declarada aos palestinos pode coexistir com cálculos de poder, busca de legitimidade interna e disputa por liderança regional.
 

Houthis e a fragilidade das rotas globais

Os Houthis demonstraram como um grupo regional pode afetar o comércio mundial.

Sua posição próxima ao estreito de Bab el-Mandeb permite ameaçar uma das principais ligações marítimas entre o oceano Índico, o Mar Vermelho e o Canal de Suez. Ataques com mísseis e drones obrigam navios a mudar rotas, elevam custos de seguro e aumentam o tempo de transporte.
 

Em 2026, novas ameaças à navegação no Mar Vermelho voltaram a produzir preocupação internacional, inclusive pelo risco de identificação imprecisa dos navios atacados.

Um grupo armado não precisa derrotar uma grande potência no sentido tradicional. Basta tornar determinada rota cara, instável e politicamente insustentável.

Essa é uma característica da guerra assimétrica: o lado mais fraco não precisa vencer todas as batalhas. Precisa aumentar continuamente o custo da presença do adversário.
 

A ONU e a impotência organizada
 

A Organização das Nações Unidas continua sendo necessária. Ela oferece fóruns diplomáticos, coordena ajuda humanitária, reúne dados, apoia refugiados, promove acordos e cria linguagem jurídica comum.

Entretanto, sua arquitetura política reflete o mundo de 1945.
 

No Conselho de Segurança, Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido possuem poder de veto. Quando uma guerra envolve diretamente um membro permanente ou um aliado estratégico, a instituição frequentemente fica paralisada.
 

O aumento do uso do veto diante das guerras em Gaza e na Ucrânia tornou visível a incapacidade do Conselho de agir de maneira coerente. A própria cobertura institucional da ONU reconheceu que os vetos prejudicaram a capacidade do órgão de responder às crises.

A ONU não é propriamente um governo mundial fracassado, porque nunca foi um governo mundial. Ela depende da disposição dos Estados — especialmente das grandes potências — para cumprir e fazer cumprir suas decisões.
 

Sua ineficiência não decorre apenas de burocracia. Decorre do fato de que os países que deveriam ser contidos são, muitas vezes, aqueles que controlam o mecanismo de contenção.

Reformar o Conselho de Segurança é necessário, mas extremamente difícil, pois aqueles que possuem o poder de veto precisariam aceitar reduzir o próprio privilégio.
 

O Brasil entre Lula, Trump e a disputa por recursos

 O Discurso eleitoreiro de Lula na Onu pontou para duas linhs distintas de avaliação. A primeira é, não só a presidência esta ultrapassada, como o Itamaraty se demonstra muito mais ideológico que diplomátio, isso é preocupante. Há de se entender que o multipolarismo esta sendo substituido, se é que existiu, pela relação de três postos de concentração e lação. Trump, Ping e Putin nem de perto são antagônicos, aliás são harmônicos. Uma verdadeira orquestra de poder. Vale reler 1984 para entender.  E nisso, sem dúvida, o Brasil é carta vital no tabuleiro atual.

 

O Brasil possui características que o tornam estrategicamente importante:

  • território continental;

  • grande produção de alimentos;

  • reservas de água;

  • biodiversidade;

  • petróleo;

  • minerais críticos;

  • capacidade energética;

  • presença no Atlântico Sul;

  • participação no BRICS;

  • relações com Estados Unidos, China, Europa e países do Sul Global.
     

O maior risco brasileiro não está em escolher automaticamente um lado, mas em transformar autonomia em ambiguidade e soberania em retórica. (Isso devemos a Lula)
 

O governo Lula procura preservar relações com a China e o BRICS, dialogar com a Rússia e manter canais com Estados Unidos e Europa. Essa política pode ampliar a margem de negociação brasileira. Também exige prudência para que o país não seja percebido como aliado automático de regimes específicos. Mas, pensemos, como a crítica ao Governo de Israel sem uma visão questionadora ao Hamas podem aproximar o atual governo a uma redenção diplomática? Resposta, não vai existirt êxito no caminho ideológico.

Lula não entendeu, e muitos à direita ou esquerd também. Ping, Trump e Putin se ajudam, se apoiam, se "amam". O resyo, problema da Europa.
 

Em 2026, novas tarifas norte-americanas atingiram produtos brasileiros e elevaram as tensões entre os governos Lula e Trump. O Brasil preparou instrumentos de reciprocidade, mas Lula declarou que evitaria aplicá-los enquanto as negociações comerciais continuassem.
 

O país precisa evitar tanto a submissão quanto a bravata. Lula e o Itamaraty não sabem conjugar essa fórmula.
 

Uma política externa madura deve proteger empresas brasileiras, diversificar mercados, atrair tecnologia, defender instituições nacionais e impedir que o Brasil se torne terreno de disputa entre potências estrangeiras.
 

A posição brasileira será mais forte se estiver apoiada em desenvolvimento científico, estabilidade jurídica, educação, infraestrutura, defesa adequada e capacidade industrial. Neutralidade sem força pode ser apenas irrelevância. Alinhamento sem autonomia pode ser dependência.
 

O caos atual possui uma estrutura
 

À primeira vista, o mundo parece tomado por acontecimentos desconectados: Ucrânia, Gaza, Taiwan, Mar Vermelho, inteligência artificial, tarifas, sanções, corrida espacial, mudanças climáticas e crise das instituições internacionais.
 

Mas existe uma ligação entre eles.

Estamos atravessando uma transição de ordem mundial.

Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar e financeira, mas enfrentam concorrência crescente. A China busca transformar poder econômico em influência estratégica. A Rússia procura impedir seu confinamento geopolítico e reafirmar-se como centro de uma civilização própria. A Europa tenta preservar prosperidade e relevância. Potências médias procuram ampliar autonomia. Empresas tecnológicas controlam infraestruturas antes reservadas aos Estados. Grupos armados exploram as vulnerabilidades da globalização.

A antiga ordem não desapareceu. A nova ainda não se consolidou.

É nesse intervalo que os riscos aumentam.
 

O que fazer com tantas interpretações?
 

Diante desse quadro, existem duas tentações.

A primeira é a ingenuidade: acreditar que instituições, governos ou empresas agem somente pelo bem comum.

A segunda é a paranoia: acreditar que todos os acontecimentos são controlados por um único grupo oculto.

As duas posições dispensam o trabalho da análise.
 

O pensamento geopolítico sério exige documentos, história, economia, capacidade militar, geografia, demografia, religião, tecnologia e comparação entre fontes.
 

É preciso ler Kissinger sem ignorar o sangue derramado pela política externa que ele ajudou a formular. Ler Chomsky sem imaginar que apenas os Estados Unidos exercem imperialismo. Ler Dugin sem transformar multipolaridade em absolvição da agressão russa. Ler Daniel Lopez distinguindo alertas legítimos, interpretações conservadoras e hipóteses que ainda exigem demonstração. Ler Montefiore para perceber que conflitos antigos não cabem em slogans recentes.
 

E assistir a canais de geopolítica mantendo a liberdade de concordar, discordar e pesquisar.

O objetivo da leitura não deve ser encontrar alguém que pense por nós. Deve ser aprender a pensar melhor.

Conclusão: ainda há lugar para o ser humano?
 

A pergunta mais profunda talvez não seja quem dominará o mundo, mas que espécie de mundo restará para ser dominado.

A tecnocracia promete eficiência, mas pode reduzir pessoas a dados. A inteligência artificial promete conhecimento, mas pode industrializar a mentira. A multipolaridade promete equilíbrio, mas também pode multiplicar conflitos. A ordem liberal fala em regras, mas frequentemente as aplica de forma desigual. O nacionalismo promete soberania, mas pode transformar o estrangeiro em inimigo permanente.
 

Entre algoritmos, mísseis, drones, mercados e disputas civilizacionais, precisamos recuperar a centralidade da pessoa humana.

Nenhuma ordem é justa se exige que o indivíduo seja apenas engrenagem. Nenhuma tecnologia é progresso se elimina responsabilidade. Nenhuma vitória militar é completa quando prepara a próxima geração para outra guerra. Nenhuma religião cumpre sua missão quando transforma a dignidade humana em obstáculo. Nenhuma ideologia merece confiança quando precisa impedir perguntas.

Estamos muito próximos da meia-noite, mas o relógio não é uma profecia. É um aviso.

Ainda podemos afastar os ponteiros.
 

Leituras recomendadas
 

Ordem mundial, China e diplomacia

  • KISSINGER, Henry. Ordem Mundial. Objetiva.

  • KISSINGER, Henry. Sobre a China. Objetiva.

  • KISSINGER, Henry; SCHMIDT, Eric; HUTTENLOCHER, Daniel. A Era da Inteligência Artificial e o Nosso Futuro Humano.

  • ALLISON, Graham. A Caminho da Guerra: Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides?

  • BRZEZINSKI, Zbigniew. O Grande Tabuleiro de Xadrez.

Crítica ao poder e à hegemonia

  • CHOMSKY, Noam. Quem Manda no Mundo? São Paulo: Crítica.

  • CHOMSKY, Noam. Estados Fracassados: O Abuso do Poder e o Ataque à Democracia. Bertrand Brasil.

  • CHOMSKY, Noam. Mídia: Propaganda Política e Manipulação.

  • GALEANO, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina.

Rússia, Eurásia e multipolaridade

  • DUGIN, Aleksandr. A Quarta Teoria Política.

  • DUGIN, Aleksandr. Teoria do Mundo Multipolar.

  • LIEVEN, Anatol. Ucrânia e Rússia: Uma Relação Fraterna Cruel.

  • PLokhy, Serhii. Os Portões da Europa: Uma História da Ucrânia.

A leitura de Dugin deve ser acompanhada por estudos críticos sobre nacionalismo, autoritarismo e política russa, evitando tratá-lo como explicação única para as decisões de Vladimir Putin.

Tecnocracia, globalização e desinformação

  • LOPEZ, Daniel. 90 Segundos para o Apocalipse: O Grande Reset e a Nova Ordem Mundial. Vide Editorial.

  • LOPEZ, Daniel. O Teatro das Sombras. Vide Editorial.

  • LOPEZ, Daniel. A Jogada Final: Tecnologia e Política na Era da Desinformação. Vide Editorial.

  • SCHWAB, Klaus; MALLERET, Thierry. COVID-19: O Grande Reset.

  • ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.

  • O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa.

  • HAN, Byung-Chul. Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia.

Oriente Médio, Israel e mundo islâmico

  • MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: A Biografia. Companhia das Letras.

  • SHLAIM, Avi. A Muralha de Ferro: Israel e o Mundo Árabe.

  • SAID, Edward W. A Questão da Palestina.

  • SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente.

  • LEWIS, Bernard. O Oriente Médio: Do Advento do Cristianismo aos Dias de Hoje.

Guerra, estratégia e poder

  • CLAUSEWITZ, Carl von. Da Guerra.

  • SUN TZU. A Arte da Guerra.

  • FREEDMAN, Lawrence. Estratégia: Uma História.

  • KALDOR, Mary. Novas e Velhas Guerras.

  • SIPRI. Anuário SIPRI: Armamentos, Desarmamento e Segurança Internacional.

Inteligência artificial e o futuro humano

  • KISSINGER, Henry; SCHMIDT, Eric; HUTTENLOCHER, Daniel. A Era da Inteligência Artificial e o Nosso Futuro Humano.

  • BOSTROM, Nick. Superinteligência: Caminhos, Perigos e Estratégias.

  • RUSSELL, Stuart. Inteligência Artificial a Nosso Favor.

  • HARARI, Yuval Noah. Nexus: Uma Breve História das Redes de Informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial.

  • CHRISTIAN, Brian. O Problema do Alinhamento: Aprendizado de Máquina e Valores Humanos.

Referências digitais consultadas

  • Bulletin of the Atomic Scientists. Doomsday Clock — 2026.

  • Stockholm International Peace Research Institute — SIPRI. SIPRI Yearbook 2026.

  • Organização das Nações Unidas. Registros e estatísticas do Conselho de Segurança.

  • Fórum Econômico Mundial. The Great Reset.

  • Companhia das Letras. Apresentações editoriais de Sobre a China, Ordem Mundial e Jerusalém: A Biografia.

  • Escola do Canal Arte da Guerra. Conteúdos sobre defesa, geopolítica e história militar.

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