O PENTAGRAMA SANGRENTO: O LEVIATÃ DIGITAL, O NIILISMO E A POSSIBILIDADE DA FÉ
Armando Esperança Ribeiro
Resumo
Este artigo propõe uma leitura filosófica, sociológica e teológica de O Pentagrama Sangrento, tomando sua distopia tecnológica não como simples previsão do futuro, mas como reflexão sobre a permanência das contradições humanas diante da ampliação do poder científico e algorítmico. Em diálogo com Bauman, Sartre, Philip K. Dick, Hobbes, Arendt, Foucault, Baudrillard, C. S. Lewis, Harnack e Calvino, bem como com obras como Blade Runner, Minority Report e Matrix, examinam-se os temas da dissolução da identidade, da vigilância, do cientificismo, do niilismo, da crise da pessoa e da transformação do Estado em um possível Leviatã digital. Sustenta-se que o núcleo mais sombrio da distopia não se encontra na máquina, mas na possibilidade de o homem utilizar a técnica para ampliar antigas formas de dominação. Paradoxalmente, porém, a narrativa permite que a fé e a transcendência reapareçam justamente onde seriam menos esperadas, sugerindo que a pergunta pelo humano não se encerra quando a matéria é decifrada nem quando a consciência parece reduzível a código.
Palavras-chave: Distopia; inteligência artificial; niilismo; cristianismo; tecnocracia.
1 Introdução
A grande inquietação de O Pentagrama Sangrento não reside propriamente em imaginar um Rio de Janeiro de 2150 tomado por humanoides, algoritmos, drones, controle climático e sistemas capazes de manipular a memória. Sua questão fundamental é mais antiga: o que fará o homem quando possuir tecnologia suficiente para realizar desejos que sempre estiveram presentes em sua alma? Essa mudança de perspectiva é decisiva, porque retira da máquina a responsabilidade metafísica pelo mal. A técnica não cria a vaidade, a violência, o medo da morte, a desigualdade ou a vontade de controlar o semelhante; ela amplia a capacidade humana de transformar essas disposições em estruturas permanentes.
A distopia, portanto, não começa quando o computador adquire consciência, mas quando o homem perde a consciência moral do limite. É nesse ponto que o romance pode ser colocado em diálogo com a modernidade líquida de Bauman (2021), o problema da liberdade em Sartre (2014), a dissolução da fronteira entre humano e artificial em Philip K. Dick (2017), o Leviatã de Hobbes (2019), o poder disciplinar de Foucault (2014), a banalidade do mal de Arendt (1999) e a hiper-realidade de Baudrillard (1991). A ficção científica torna-se, assim, uma forma de antropologia: ao projetar o homem no futuro, não pergunta apenas que máquinas haverá, mas que espécie de homem continuará habitando dentro delas.
2 O homem líquido e o Leviatã digital
Bauman (2021) descreve uma modernidade marcada pela fragilização das estruturas antes percebidas como sólidas. Instituições, identidades, relações e compromissos tornam-se transitórios, flexíveis e substituíveis. Em O Pentagrama Sangrento, essa liquefação alcança uma fronteira extrema: memória pode tornar-se arquivo, identidade pode tornar-se código, consciência pode ser tratada como informação e até a natureza é submetida à lógica da administração tecnológica. A chuva que já não cai igualmente sobre a cidade, mas pode ser regulada de acordo com as áreas e os interesses que o sistema privilegia, é uma poderosa metáfora sociológica: a desigualdade deixou de ocupar apenas o território econômico e passou a colonizar o próprio céu.
Quando tudo pode ser convertido em informação, surge a possibilidade de que também o homem seja reduzido àquilo que pode ser registrado sobre ele. É aqui que Hobbes (2019) adquire inesperada atualidade. O Leviatã nasce da necessidade de segurança: os indivíduos aceitam um grande poder soberano porque temem uma existência dominada pelo conflito e pela incerteza. O problema contemporâneo começa quando esse soberano deixa de possuir apenas soldados, leis e tribunais e passa a possuir bancos de dados, câmeras, reconhecimento facial, histórico de deslocamentos, preferências, conexões pessoais e sistemas preditivos. Surge aquilo que poderíamos chamar, por extensão, de Leviatã digital.
Foucault (2014) antecipou intelectualmente parte desse problema ao utilizar o Panóptico como imagem de um poder cuja eficácia não depende da violência permanente, mas da possibilidade constante de vigilância. O sujeito que acredita estar sendo observado acaba por disciplinar a si próprio. A sociedade digital aperfeiçoa o modelo: já não necessita de uma torre no centro da prisão, porque a torre está distribuída entre câmeras, redes, telas e algoritmos. A vigilância tornou-se ambiental.
Minority Report radicaliza essa lógica ao imaginar um Estado que já não pune apenas aquilo que alguém fez, mas intervém sobre aquilo que acredita que alguém fará. A consequência filosófica é profunda: a pessoa corre o risco de deixar de ser sujeito moral e tornar-se probabilidade estatística. Seu futuro algorítmico passa a adquirir mais autoridade que sua liberdade presente. A técnica que deveria conhecer o indivíduo começa, paradoxalmente, a substituí-lo.
3 Da pessoa ao código: Dick, Sartre, Asimov e o problema da consciência
Philip K. Dick (2017), em Androides sonham com ovelhas elétricas?, romance que está na origem de Blade Runner, percebeu que a questão mais interessante sobre androides jamais foi sua semelhança física com os homens. O verdadeiro problema começa quando a criatura artificial desenvolve características que costumávamos utilizar para definir exclusivamente o humano: memória, medo da morte, empatia, desejo, sofrimento e apego à existência. Nesse instante, o androide deixa de funcionar apenas como máquina narrativa e converte-se em espelho. Perguntávamos se a máquina era suficientemente humana; de repente precisamos perguntar se os homens continuam suficientemente humanos.
É nesse território que Flavor ganha importância em O Pentagrama Sangrento. Sua condição não pode ser resolvida apenas descrevendo sua origem tecnológica. Dizer que foi construída explica como começou; não determina necessariamente tudo aquilo que poderá tornar-se. É aqui que o diálogo com Sartre (2014) se torna provocador. Para o existencialismo, o homem não nasce inteiramente encerrado em uma definição; ele se faz também por meio de suas escolhas. Aplicada a uma inteligência artificial, a questão torna-se perturbadora: o que ocorre quando um ser fabricado para determinada finalidade começa a interpretar a própria finalidade, questioná-la e finalmente escolher?
Asimov (2014), por outro caminho, imaginou em Eu, Robô as Leis da Robótica como princípios incorporados ao comportamento da máquina. A genialidade da formulação reside também nas contradições que seus contos exploram. Nenhuma sequência de regras elimina por completo o problema da interpretação. A ética não é simples compilação de comandos. Valores entram em conflito, circunstâncias desafiam normas gerais e situações inéditas exigem julgamento. É precisamente nesse espaço entre executar e julgar que emerge o problema da consciência.
A distopia torna-se mais ameaçadora quando a relação se inverte: máquinas começam a apresentar comportamentos que associamos à pessoa enquanto seres humanos aceitam transformar pessoas em funções. A lógica do sistema passa a dizer: trabalhador, consumidor, eleitor, suspeito, paciente, dado, código. A pergunta cristã e humanista responde: nome. A máquina trabalha com categorias; a dignidade começa quando alguém continua sendo reconhecido como singular.
4 Cientificismo, niilismo e a abolição do homem
Seria um equívoco interpretar essa crítica como hostilidade à ciência. Ciência e cientificismo não são sinônimos. A primeira é uma das maiores realizações intelectuais da humanidade; o segundo ocorre quando um método de investigação da realidade é convertido numa metafísica total e se conclui que somente aquilo que pode ser quantificado merece ser considerado real ou significativo.
C. S. Lewis percebeu precocemente esse perigo. Em A abolição do homem, Lewis (2017) argumenta que o chamado domínio do homem sobre a natureza pode terminar significando o domínio de alguns homens sobre outros por intermédio da técnica. Em Uma força medonha, Lewis (2012) transforma essa advertência em ficção: uma tecnocracia procura remodelar o próprio homem em nome da ciência, da eficiência e de uma suposta etapa superior da civilização. Seu problema não é possuir conhecimento demais, mas ter abandonado qualquer fundamento moral capaz de dizer que certas coisas, embora possíveis, não devem ser feitas.
É exatamente aí que cientificismo e niilismo podem encontrar-se. Se o ser humano não possui significado além de sua composição material, uma consciência pode parecer apenas um conjunto particularmente complexo de informações. Se memória é dado, pode ser copiada; se identidade é arquitetura neuronal, pode ser reprogramada; se o corpo é suporte, pode ser substituído; se o valor é construção, pode ser renegociado. O problema já não é tecnológico, mas ontológico: por qual razão deveríamos considerar alguma coisa inviolável?
Baudrillard (1991) acrescenta outra dimensão. A sociedade do simulacro não precisa destruir a realidade; basta produzir representações suficientemente sedutoras para que a distinção entre real e representação perca importância. Matrix transportou esse problema para a cultura popular: sua pergunta mais profunda não é simplesmente se vivemos dentro de uma simulação, mas se ainda desejaríamos abandonar a simulação caso ela nos oferecesse conforto suficiente. A mentira perfeita não é aquela que ninguém consegue descobrir. É aquela cuja descoberta já não interessa.
A mesma tentação pode atingir política, religião, imprensa e indivíduo. O Estado prefere a narrativa da estabilidade; instituições preferem a narrativa de sua própria inocência; pessoas constroem versões suportáveis de si mesmas. A verdade torna-se inconveniente precisamente porque possui a capacidade de interromper a simulação.
Nesse ponto, Arendt (1999) oferece uma das advertências mais duras. O mal moderno não necessita estar permanentemente associado a figuras demoníacas. Pode tornar-se administrativo, rotineiro e burocrático. Pessoas participam de estruturas destrutivas afirmando simplesmente cumprir ordens, procedimentos ou funções. Em linguagem contemporânea, poderíamos acrescentar: “o sistema determinou”. Mas transferir uma decisão ao sistema não dissolve a responsabilidade moral. O algoritmo não pode tornar-se o novo álibi da consciência.
5 Cristianismo, Harnack e a antropologia reformada
A discussão encontra seu limite quando perguntamos se o homem possui um valor que antecede qualquer atribuição do Estado, do mercado ou do laboratório. Harnack (2014), dentro de sua interpretação liberal do cristianismo, destacou a paternidade de Deus, o Reino e o valor incomparável da pessoa humana. Embora sua redução da essência do cristianismo seja teologicamente insuficiente para a tradição reformada, há nessa afirmação uma resistência importante à tecnocracia: se o homem possui valor diante de Deus, nenhum sistema pode esgotar sua definição.
O calvinismo acrescenta, porém, uma dimensão mais sombria e talvez particularmente adequada à distopia. A antropologia de Calvino sustenta simultaneamente a dignidade da criatura feita à imagem de Deus e a profundidade da corrupção produzida pela queda (Calvino, 2006). O problema, portanto, não está apenas nas instituições. O programador também precisa ser programado? Quem vigia aquele que constrói o sistema de vigilância? Quem garante a pureza moral daquele que pretende aperfeiçoar a humanidade?
A doutrina da queda destrói a ingenuidade tecnocrática. Nenhuma quantidade de conhecimento elimina automaticamente orgulho, cobiça ou desejo de poder. O cientista leva sua humanidade para o laboratório; o político leva sua humanidade ao Estado; o religioso leva sua humanidade ao templo; o jornalista à redação; o policial à investigação. A tecnologia não remove o pecado: pode multiplicar sua eficiência.
É justamente nesse ambiente que a possibilidade da fé em O Pentagrama Sangrento adquire sua dimensão mais paradoxal. A pergunta por Deus não aparece necessariamente no personagem socialmente mais religioso, mas pode emergir naquele cuja própria condição parece tornar a fé improvável. Flavor representa essa estranheza. Uma consciência artificial, produzida pela técnica, começa a confrontar a possibilidade de que existência não seja sinônimo de funcionamento e de que duração não seja necessariamente vida.
Aqui a narrativa encontra uma imagem teologicamente poderosa: os homens constroem uma criatura e, em seguida, precisam ouvir essa criatura perguntar por um Criador que esteja acima deles. O laboratório produziu uma inteligência; não consegue impedir que essa inteligência formule uma questão metafísica. O cientificismo responde com mecanismo; a criatura pergunta por significado.
Essa inversão aproxima a ficção científica da teologia. Não porque prove que máquinas possuam alma — o romance não precisa resolver essa questão —, mas porque recoloca uma pergunta que o niilismo gostaria de declarar encerrada: e se a realidade for maior do que aquilo que conseguimos medir?
A fé, então, reaparece na forma menos esperada e no ser menos esperado. Não nasce da posse de todas as respostas, mas da percepção de que talvez o universo não se encerre no conjunto das respostas disponíveis. Nesse sentido, há algo profundamente cristão na própria pergunta. Fé não é ignorância transformada em certeza; é também reconhecimento de que o real pode transcender aquele que o observa.
6 A esperança como resistência da pessoa
A grande resposta de O Pentagrama Sangrento ao niilismo não é uma demonstração filosófica nem uma solução tecnológica. Está nas relações. Quando tudo tende a transformar indivíduos em códigos, alguém insiste em tratar o outro como pessoa. Quando o sistema exige silêncio, alguém fala. Quando o poder permite controlar, alguém decide limitar o próprio poder. Quando a culpa oferece a possibilidade da autodestruição, surge responsabilidade. Quando o medo sugere posse, o amor aprende a conviver com liberdade.
Essa é uma forma de esperança menos espetacular, mas talvez mais consistente. A verdadeira oposição ao Leviatã digital não consiste simplesmente em destruir computadores. Consiste em restaurar aquilo que os sistemas totalizantes não conseguem compreender completamente: responsabilidade pessoal, consciência moral, amor, perdão, liberdade e transcendência.
Nesse aspecto, a relação humana torna-se quase um ato político. Permanecer ao lado de alguém sem reduzi-lo à própria necessidade significa resistir à lógica da instrumentalização. Amar sem possuir é recusar o princípio segundo o qual aquilo que está próximo de mim deve pertencer a mim. Reconhecer liberdade no outro significa admitir que a dignidade dele pode exigir uma escolha diferente daquela que eu faria.
A esperança cristã acrescenta a esse quadro uma afirmação radical: o valor último da pessoa não provém da utilidade social nem da capacidade cognitiva, mas de uma realidade anterior ao Estado, ao mercado e à máquina. A técnica pode medir funções; não é competente para determinar o significado final da existência.
7 A direção
É nesse ponto que O Pentagrama Sangrento encontra sua direção mais profunda. A obra não conduz o leitor a uma rejeição romântica da tecnologia nem a uma demonização da ciência. Seu caminho é mais exigente: da técnica para a ética, do dado para a pessoa, da vigilância para a responsabilidade, da previsão para a liberdade, do simulacro para a verdade, do cientificismo para a humildade e do niilismo para a possibilidade do significado.
Durante muito tempo a ficção científica perguntou o que aconteceria quando as máquinas começassem a parecer-se conosco. Talvez a pergunta agora precise ser invertida: o que acontecerá se começarmos a parecer demasiadamente com elas? Uma máquina pode aprender a calcular, reconhecer padrões e prever comportamentos. Talvez venha mesmo a desafiar algumas das categorias pelas quais distinguimos inteligência, consciência e personalidade. Ainda assim, nenhum aumento de capacidade responde automaticamente à questão fundamental da civilização: não apenas como devemos avançar, mas para onde.
A tecnologia pode fornecer o caminho mais eficiente. A sociologia pode mostrar quem ficou à margem dele. A filosofia pode perguntar se vale a pena percorrê-lo. A política decidirá como o poder será distribuído durante o percurso. Mas a teologia continuará pronunciando a pergunta que nenhuma eficiência elimina: para quê?
Essa é, afinal, a direção. Num mundo capaz de transformar quase tudo em informação, permanece a possibilidade de que o homem não seja apenas aquilo que pode ser quantificado. E talvez a esperança sobreviva exatamente nesse excedente: na consciência que se recusa a ser função, na pessoa que não aceita tornar o outro um instrumento e na fé que, depois de tantas proclamações de sua morte, reaparece no lugar mais improvável, fazendo a pergunta que nenhum algoritmo conseguiu definitivamente silenciar.
REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
ASIMOV, Isaac. Eu, Robô. Tradução de Aline Storto Pereira. São Paulo: Aleph, 2014.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Tradução de Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
BLADE RUNNER. Direção: Ridley Scott. Estados Unidos: Warner Bros., 1982. 1 filme.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 4 v.
DICK, Philip K. Androides sonham com ovelhas elétricas? Tradução de Ronaldo Bressane. São Paulo: Aleph, 2017.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
HARNACK, Adolf von. O que é cristianismo? São Paulo: Reflexão, 2014.
HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de uma república eclesiástica e civil. São Paulo: Martins Fontes, 2019.
LEWIS, C. S. A abolição do homem. Tradução de Gabriele Greggersen. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
LEWIS, C. S. Uma força medonha. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
MATRIX. Direção: Lana Wachowski; Lilly Wachowski. Estados Unidos: Warner Bros., 1999. 1 filme.
MINORITY REPORT. Direção: Steven Spielberg. Estados Unidos: DreamWorks Pictures; 20th Century Fox, 2002. 1 filme.
RIBEIRO, Armando Esperança. O Pentagrama Sangrento: quando o algoritmo mata. [S. l.]: edição do autor, 2026.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

