Por Armando Ribeiro — Virando as Páginas
Antes de começar: livros para percorrer essa estrada
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Pais e filhos, de Ivan Turguêniev: o encontro com Bazárov ajuda a compreender o niilismo russo e o conflito entre gerações.
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Uma confissão, de Liev Tolstói: o relato essencial de sua crise de sentido e de sua busca religiosa.
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A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói: uma vida socialmente bem-sucedida colocada diante da morte e da verdade.
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Guerra e paz, de Liev Tolstói: história, sofrimento, vínculos humanos e a busca de Pierre por uma maneira de viver.
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Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski: a consciência que transforma a lucidez em prisão e contesta explicações simplificadoras do ser humano.
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Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski: uma ideia de superioridade moral confrontada pelo crime, pela culpa e pela possibilidade de renovação.
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Os demônios, de Fiódor Dostoiévski: o romance mais diretamente ligado à crítica do radicalismo niilista russo.
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Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski: fé, dúvida, sofrimento, responsabilidade e amor em sua expressão mais profunda.
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A gaia ciência, de Friedrich Nietzsche: para enfrentar o diagnóstico da “morte de Deus” sem reduzir Nietzsche a um pregador do desânimo.
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O Reino de Deus está em vós, de Liev Tolstói: para conhecer sua interpretação ética e radical dos ensinamentos de Jesus, com suas diferenças em relação ao cristianismo histórico.
Minha sugestão de entrada é Pais e filhos → Uma confissão → A morte de Ivan Ilitch → Crime e castigo → Os demônios. Depois, reserve tempo para Guerra e paz e Os irmãos Karamázov. As indicações são de obras; os títulos podem apresentar pequenas variações entre traduções.
O fascínio de uma substância chamada nada
Houve um tempo em que me apaixonei pela escola niilista — ou, mais precisamente, por aquilo que eu enxergava nela: a coragem de desconfiar, de desmontar certezas e de interrogar os valores que o mundo apresentava como definitivos. Parecia haver uma liberdade imensa nessa recusa. Quando todos ofereciam respostas prontas, a negação soava como um gesto de inteligência.
Mas existe uma diferença entre questionar uma resposta e perder a capacidade de reconhecer qualquer resposta possível.
É nesse ponto que emprego a palavra “droga”. Não como diagnóstico médico, nem como insulto a quem pensa de outra maneira. Uso-a como uma imagem: uma substância que promete libertação, mas pode nos acostumar ao nada. A primeira dose derruba uma falsa certeza. A seguinte começa a tornar suspeita toda esperança. Depois, até o amor corre o risco de parecer apenas um mecanismo, e a bondade, um disfarce.
Não afirmo que essa seja a consequência necessária de toda filosofia associada ao niilismo. Falo do fascínio que ela exerceu sobre mim e do perigo de transformar a negação em morada. Criticar tudo pode produzir uma espécie de satisfação: quem nunca afirma nada imagina nunca precisar responder por coisa alguma.
As leituras de Tolstói e Dostoiévski, atravessadas pelo encontro com o cristianismo, foram me curando nessa estrada. Não eliminaram minhas perguntas. Ensinaram-me a desconfiar também da pretensão de que o vazio tenha a última palavra.
De onde veio o niilismo?
O nome deriva do latim nihil: nada. Sua história, entretanto, não cabe numa única data nem numa doutrina uniforme. Há niilismos que questionam fundamentos do conhecimento, outros que negam valores morais objetivos e outros ligados à ausência de sentido último. O niilismo russo do século XIX tinha ainda uma dimensão social e política própria.
Um marco decisivo do emprego filosófico do termo foi a carta de Friedrich Heinrich Jacobi a Fichte, em 1799. Jacobi usava a expressão de maneira crítica, preocupado com o que considerava as consequências do idealismo. Isso não faz dele um defensor do niilismo, nem autor indiscutível da palavra: há registros anteriores e controvérsias sobre sua origem (Toribio Vazquez, 2021).
Na Rússia, a expressão ganhou enorme circulação com Pais e filhos, publicado por Ivan Turguêniev em 1862. Bazárov, personagem central, rejeita autoridades e princípios aceitos por tradição. Turguêniev não deve ser confundido com seu personagem: a literatura pode representar uma posição sem adotá-la como manifesto.
Entre os intelectuais ligados ao ambiente radical russo, Dmítri Píssarev ocupa um lugar importante por assumir a designação niilista e defender uma crítica contundente dos valores tradicionais. Nikolai Tchernichévski, autor de O que fazer?, publicado em 1863, também integra esse contexto, embora seu projeto racionalista e social não possa ser resumido à crença de que “nada importa”. Muitos daqueles radicais acreditavam intensamente na ciência, na transformação social e na emancipação (Frede, 2020).
Com Friedrich Nietzsche, o problema alcança outra dimensão. A “morte de Deus”, em A gaia ciência, expressa o abalo dos fundamentos religiosos e morais da cultura europeia. Nietzsche diagnostica o niilismo e procura atravessá-lo mediante a criação e a reavaliação de valores. Apresentá-lo simplesmente como alguém que ensinava que a vida não vale nada seria empobrecer seu pensamento.
Por isso, convém distinguir os nomes: Jacobi denuncia um perigo; Turguêniev o encena; Píssarev representa uma vertente russa; Nietzsche investiga uma crise cultural. Tolstói e Dostoiévski entram nessa conversa por caminhos literários e religiosos que resistem ao esvaziamento da vida.
Tolstói: um homem que conheceu o abismo
Liev Tolstói não escreveu sobre a falta de sentido como quem observa uma tragédia à distância. Em Uma confissão, relata uma crise em que a fama, a riqueza, a família e o reconhecimento literário não bastavam para responder à pergunta que o perseguia: que significado pode ter a vida diante da morte?
Aqui está sua imensa carga de angústia niilista. Não é preciso transformá-lo em membro de uma escola para reconhecer a força dessa experiência. Ele possuía aquilo que muita gente imagina ser suficiente para a felicidade e, ainda assim, via suas conquistas ameaçadas pela sensação de inutilidade.
Sua busca passa pela observação da fé vivida por pessoas simples, pelo trabalho e por uma compreensão religiosa da existência. O sentido começa a aparecer como algo que permite viver, amar e agir, mesmo sem uma demonstração capaz de eliminar todos os mistérios.
Essa resposta também atravessa sua ficção. Em minha leitura de A morte de Ivan Ilitch, a pergunta mais incômoda não é apenas por que morremos, mas como conseguimos viver tanto tempo obedecendo a expectativas que talvez nunca tenhamos examinado. A experiência da compaixão confronta uma vida organizada pela aparência. Em Guerra e paz, as buscas de Pierre e a presença de Platón Karatáiev oferecem outra entrada: a existência não se esgota nos grandes projetos, na glória militar ou nas explicações abstratas da história.
Esses romances não são tratados de uma única tese. Guerra e paz, sobretudo, é anterior à crise religiosa narrada em Uma confissão. Não devemos apresentá-lo como resultado direto de sua conversão posterior. Ainda assim, podemos encontrar nele perguntas que Tolstói retomaria de outras maneiras: onde está o bem? O que sustenta uma pessoa? Como viver quando a história destrói nossos planos?
O cristianismo de Tolstói e os seus limites
Foi o cristianismo que Tolstói representava — sua insistência no amor, na simplicidade, na consciência e nos ensinamentos de Jesus — que me ajudou a reconsiderar o encanto da negação. Sua obra recolocou diante de mim o próximo concreto, aquele que sofre e que não pode ser reduzido a uma discussão intelectual.
Mas preciso fazer uma distinção, especialmente como cristão reformado: o cristianismo de Tolstói não coincide com a fé cristã histórica em todos os seus fundamentos. Ele privilegiou a dimensão ética dos ensinamentos de Jesus e rejeitou doutrinas centrais, entre elas a Trindade e a divindade de Cristo. Seu conflito com a Igreja Ortodoxa culminou em sua excomunhão, em 1901 (Hamburg, 2010).
Posso aprender com sua percepção moral sem assumir integralmente sua teologia. O amor ao próximo que sua literatura me ensinou a enxergar encontra, em minha fé, seu fundamento em Cristo: em sua pessoa, sua graça e sua ressurreição. Minha saída do fascínio pelo nada não se resume ao esforço de ser moralmente melhor. Ela envolve reconhecer que a vida é recebida, que o perdão é possível e que a esperança não depende apenas de mim.
Dostoiévski: quando a ideia encontra a pessoa
Dostoiévski entra nessa estrada com uma intensidade dferente. Ele deixa que a dúvida fale. Seus personagens argumentam, protestam, se contradizem e levam as ideias até suas consequências dolorosas. A fé não aparece como uma resposta que desconhece o sofrimento.
Em minha leitura de Crime e castigo, Raskólnikov procura autorizar a transgressão por meio de uma teoria sobre pessoas extraordinárias. O encontro entre o crime e a consciência revela o quanto uma ideia pode fracassar quando encontra uma pessoa real. Sônia introduz uma presença de compaixão, sofrimento compartilhado e esperança cristã; a leitura da ressurreição de Lázaro torna essa dimensão especialmente visível.
Os demônios examina como projetos que prometem libertação podem desembocar em manipulação e violência. A crítica ao radicalismo niilista não significa que todo questionamento de uma ordem injusta seja perverso. O alvo é também a disposição de sacrificar seres humanos concretos a um sistema que se julga autorizado a tudo.
Já em Os irmãos Karamázov, a revolta de Ivan diante do sofrimento, especialmente o das crianças, impede qualquer resposta religiosa leviana. Aliócha e Zóssima apontam para o amor vivido, a responsabilidade e a presença junto ao outro. Dostoiévski, ligado ao cristianismo ortodoxo, não oferece a mesma reconstrução religiosa de Tolstói. Essa diferença torna o encontro entre eles ainda mais fecundo.
As leituras que me curaram na estrada
Tolstói e Dostoiévski não me ensinaram a desprezar a inteligência. Ensinaram-me a perceber que a inteligência pode adoecer em sua própria pretensão de suficiência. Ela interroga o amor, mas não ocupa seu lugar. Explica mecanismos da vida, mas não encerra tudo o que significa estar vivo.
Minha paixão inicial pelo niilismo tinha algo de legítimo: eu queria arrancar máscaras, enfrentar hipocrisias e recusar respostas vazias. O problema surgiu quando a desconfiança ameaçou tornar-se meu único modo de olhar. Aos poucos, esses escritores me ajudaram a compreender que desmontar uma mentira não exige declarar que toda verdade é impossível.
Foi uma cura na estrada. Uma aprendizagem lenta de que a dor não demonstra, por si só, a inexistência do sentido; de que o fracasso de uma instituição não anula toda fé; de que o amor continua exigindo de mim uma resposta, mesmo quando meus argumentos tentam fugir dela.
A “droga” do niilismo, na imagem que proponho, é esse hábito de transformar o nada na explicação final de tudo. Tolstói me mostrou a inquietação de quem não conseguia viver dessa explicação. Dostoiévski me fez ouvir, no meio do conflito, a voz da consciência, da compaixão e da redenção.
E Cristo me ensinou a caminhar com esperança. Ainda tenho perguntas. Mas já não preciso fazer delas uma casa sem portas, sem amor e sem amanhã.
Referências e notas de leitura
As interpretações dos romances são leituras críticas, não declarações de que cada obra sustente uma tese única. Não foram incluídas citações literais nem números de página, pois eles dependem da tradução utilizada.
Obras literárias e filosóficas citadas — anos das primeiras publicações:
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. 1864.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo. 1866.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os demônios. 1871–1872, publicação em periódico; edição em livro em 1873.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. 1879–1880, publicação em periódico; edição em livro em 1880. Texto em tradução inglesa disponível no Project Gutenberg.
NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. 1882; edição ampliada em 1887.
TCHERNICHÉVSKI, Nikolai. O que fazer?. 1863.
TOLSTÓI, Liev. Guerra e paz. 1865–1869, publicação inicial em etapas.
TOLSTÓI, Liev. Uma confissão. Escrita em 1879–1882; publicada integralmente em russo no exterior em 1884. Tradução francesa disponível no Project Gutenberg.
TOLSTÓI, Liev. A morte de Ivan Ilitch. 1886.
TOLSTÓI, Liev. O Reino de Deus está em vós. 1894.
TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e filhos. 1862.
Fontes de contextualização:
HAMBURG, G. M. Tolstoy’s spirituality. In: ORWIN, Donna Tussing (org.). Anniversary Essays on Tolstoy. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. p. 138–158. DOI: 10.1017/CBO9780511676246.008. Acesso em: 30 set. 2026.
FREDE, Victoria. Nihilism. In: EMERSON, Caryl; PATTISON, George; POOLE, Randall A. (org.). The Oxford Handbook of Russian Religious Thought. Oxford: Oxford University Press, 2020. Disponível em: Oxford Academic. Acesso em: 30 set. 2026.
TORIBIO VAZQUEZ, Juan Luis. Nietzsche’s shadow: On the origin and development of the term nihilism. Philosophy & Social Criticism, 2021. DOI: 10.1177/0191453720975454. Acesso em: 30 set. 2026.

“Guerra e Paz: uma leitura para continuar”
Guerra e Paz, de Liev Tolstói, é um romance sobre a história atravessando a vida das pessoas. Ambientado na Rússia durante as guerras napoleônicas, acompanha famílias cujos amores, perdas e esperanças se encontram com acontecimentos que ninguém consegue controlar inteiramente.
Pierre Bezúkhov procura um sentido para a existência; o príncipe Andrei enfrenta o desencanto com a glória; Natasha Rostóva amadurece entre a alegria, o erro e o sofrimento. Por meio deles, Tolstói transforma questões grandiosas em experiências profundamente humanas.
Uma das forças do livro está em questionar a ideia de que apenas os grandes líderes fazem a história. Por trás das decisões de imperadores e generais, existem incontáveis ações, circunstâncias e vidas anônimas.
E talvez aí esteja sua maior beleza: enquanto a guerra expõe a fragilidade das nossas ambições, a vida cotidiana revela o valor do amor, da família e da compaixão. Ler Guerra e Paz é acompanhar pessoas que, em meio ao caos do mundo, tentam descobrir o que realmente merece ser vivido.



