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Filmes & Animes

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Indicação — Death Note

Death Note é uma das obras mais provocadoras do anime moderno. A partir da história de Light Yagami, um jovem que encontra um caderno capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito nele, a narrativa transforma suspense em um verdadeiro debate sobre justiça, poder, culpa e corrupção moral.

O confronto entre Light e o enigmático detetive L é o coração da trama. Mais do que uma disputa de inteligência, os dois representam visões diferentes sobre o que significa fazer justiça. Ao longo da história, a pergunta deixa de ser apenas “quem está certo?” e passa a ser: o que acontece quando alguém acredita ter autoridade absoluta para decidir sobre a vida dos outros?

Com atmosfera sombria, ritmo intenso e personagens memoráveis, Death Note lembra obras como Crime e Castigo, de Dostoiévski, e o mito do Anel de Giges, de Platão, ao mostrar que o verdadeiro perigo do poder talvez não esteja apenas no que ele permite fazer, mas em quem nos tornamos quando ninguém consegue nos impedir.

É uma indicação essencial para quem gosta de suspense psicológico, filosofia e conflitos morais.

Onde assistir: no Brasil, o anime completo, com 37 episódios, está atualmente disponível por assinatura na Netflix e na HBO Max, também pelo HBO Max Amazon Channel, e pode ser assistido gratuitamente com anúncios na Pluto TV.

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O Signidicado da paternidade em Star Wars

Quando pensamos em Star Wars, lembramos imediatamente de sabres de luz, naves, impérios, batalhas e da eterna disputa entre o lado luminoso e o lado sombrio. Mas por trás de toda essa grandiosidade existe uma história muito mais íntima: uma história sobre pais, filhos, mestres, perdas e a possibilidade de recomeçar.

Tudo começa com Anakin Skywalker, ainda menino, vivendo com sua mãe, Shmi, no deserto de Tatooine. Ele cresce sem a presença de um pai e em circunstâncias muito difíceis. Apesar disso, existe entre mãe e filho um vínculo profundo. Quando Qui-Gon Jinn percebe as extraordinárias capacidades daquele garoto e decide levá-lo para ser treinado como Jedi, Anakin precisa abandonar justamente aquilo que lhe dava segurança: sua mãe e seu lar.

Qui-Gon torna-se por pouco tempo uma espécie de referência paterna para aquele menino. Com sua morte, Obi-Wan Kenobi assume a responsabilidade de treiná-lo. O que começa como uma relação entre mestre e Padawan transforma-se ao longo dos anos em algo muito maior. Obi-Wan e Anakin combatem juntos, enfrentam guerras, salvam um ao outro e desenvolvem uma amizade tão intensa que Obi-Wan passa a enxergá-lo quase como um irmão.

Entretanto, Anakin nunca consegue superar completamente o medo da perda. Primeiro foi separado da mãe. Depois, quando finalmente a reencontra, ela morre em seus braços. Mais tarde surge o terror de perder Padmé. Aquilo que deveria ser amor começa a ser dominado pelo medo.

É justamente essa fragilidade que Palpatine explora.

Anakin deseja tanto proteger sua família que acaba acreditando que o poder poderá impedir a morte. O resultado é uma das grandes tragédias da saga: o homem que queria salvar aqueles que amava acaba destruindo quase tudo aquilo que desejava preservar.

Assim nasce Darth Vader.

Anos depois, a história parece recomeçar no mesmo lugar. Luke Skywalker também cresce no deserto de Tatooine, distante de seu verdadeiro pai. Ele é criado por Owen e Beru Lars, seu tio e sua tia, que desempenham na prática o papel de seus pais. Eles lhe oferecem casa, trabalho, limites, proteção e pertencimento.

Essa parte da história sempre me pareceu importante porque Star Wars mostra que família não é apenas uma questão de sangue. Família também é formada por aqueles que permanecem, educam, protegem e assumem responsabilidade por uma vida.

Quando Luke perde Owen e Beru, Obi-Wan surge novamente na história.

É emocionante perceber que Obi-Wan não conseguiu impedir a queda de Anakin, mas agora encontra diante de si o filho daquele antigo amigo. Ele apresenta Luke ao universo Jedi, entrega-lhe o sabre que pertenceu ao pai e começa a aconselhá-lo.

Mesmo depois de sua morte, Obi-Wan continua presente. Sua voz acompanha Luke, orientando-o nos momentos decisivos.

Depois surge Yoda.

Yoda havia conhecido Anakin e presenciado muitos dos acontecimentos que culminaram em sua queda. Agora encontra Luke e percebe nele algumas das mesmas características: coragem, impaciência, intensidade e medo.

Obi-Wan e Yoda tornam-se, assim, espécies de pais espirituais para Luke. Um oferece direção e memória; o outro oferece sabedoria, disciplina e domínio próprio.

Mas existe uma diferença fundamental entre Luke e Anakin.

Luke também conhece a perda. Também sente medo. Também experimenta a raiva. Também deseja proteger aqueles que ama.

Porém, quando chega o momento decisivo, ele consegue fazer uma escolha diferente.

Ao descobrir que Darth Vader é seu pai, Luke precisa enfrentar uma verdade devastadora. O homem responsável por tanto sofrimento, aquele que representa tudo aquilo contra o qual ele luta, é também Anakin Skywalker.

Como aceitar o passado de um pai assim?

Como reconhecer alguém sem negar aquilo que essa pessoa fez?

É nesse ponto que a saga alcança uma dimensão profundamente humana.

Luke não procura apagar os crimes de Vader. Ele sabe exatamente quem está diante dele. Mas se recusa a acreditar que Darth Vader seja tudo o que resta de Anakin.

Enquanto Obi-Wan e Yoda praticamente consideram Anakin perdido, Luke percebe algo diferente:

ainda existe bondade em seu pai.

Talvez esse seja um dos momentos mais bonitos de toda a saga. Durante boa parte da história, são Obi-Wan e Yoda que ensinam Luke. Mas, nesse momento, é Luke quem consegue enxergar algo que seus próprios mestres já não conseguem perceber.

Ele acredita que o pai ainda pode escolher.

No confronto final, Luke chega perigosamente perto de repetir o caminho de Anakin. Ele sente raiva, ataca Vader e quase se deixa dominar pelo ódio. Porém consegue parar.

E nesse instante o filho rompe o ciclo que destruiu o pai.

Luke não precisa matar Vader para vencê-lo. Ele simplesmente se recusa a transformar-se nele.

Essa escolha também provoca algo em Anakin.

Quando o Imperador começa a destruir Luke, Vader observa o sofrimento do filho. Dentro daquela armadura parece existir uma última batalha: de um lado, Darth Vader, servo do Imperador; do outro, Anakin Skywalker, pai de Luke.

Finalmente, o pai vence.

Anakin salva o filho sabendo que provavelmente morrerá por isso.

É um gesto simples e gigantesco ao mesmo tempo. Durante anos ele tentou conservar aquilo que amava através do poder e do controle. Agora finalmente compreende que amar também significa entregar-se pelo outro.

Depois vem uma das cenas mais tocantes de Star Wars.

Luke retira a máscara de Vader.

Por alguns instantes desaparecem as guerras, os Jedi, o Império e os sabres de luz.

Restam apenas um pai e um filho.

Anakin quer olhar Luke com seus próprios olhos.

O filho finalmente vê o rosto de seu pai, e o pai finalmente contempla o filho que nunca teve oportunidade de criar.

Nada disso elimina o passado. Os erros continuam existindo. As mortes não podem ser desfeitas. Os traumas não desaparecem simplesmente porque houve um último gesto de amor.

Não podemos deixar de avaliar esse efeito sob outra significância: o pai e a filha,

Se Luke representa a possibilidade da reconciliação entre pai e filho, Leia representa aquilo que Anakin perdeu e jamais conseguiu recuperar. Vader encontra a própria filha sem reconhecê-la como filha; interroga-a, participa da estrutura imperial que destrói seu mundo e enfrenta a mulher que, sem que ele saiba, carrega seu próprio sangue e parte do legado de Padmé. Há uma ironia dolorosa nisso: Leia possui justamente muitas características de Anakin — coragem, obstinação, liderança, intensidade e uma disposição quase feroz de proteger aqueles que ama —, mas desenvolve essas qualidades do lado oposto ao escolhido pelo pai. Criada por Bail e Breha Organa, ela recebe de uma família adotiva aquilo que Anakin não pôde oferecer: identidade, formação, afeto e um sentido de responsabilidade colocado a serviço dos outros. Diferentemente de Luke, porém, Leia não recebe o momento final de reconciliação com Vader. Não existe entre eles a retirada da máscara, o olhar de reconhecimento ou a despedida entre pai e filha. E talvez isso torne sua história ainda mais comovente. A redenção de Anakin alcança o filho diante de seus olhos, mas chega à filha apenas como uma verdade que ela terá de compreender depois. Leia nos lembra, assim, que nem toda relação familiar ferida encontra tempo para ser reparada pessoalmente. Às vezes existe perdão sem convivência, reconhecimento sem reencontro e uma herança que precisa ser ressignificada por quem ficou. Anakin salva Luke no fim de sua vida; de certa maneira, porém, sua última escolha também devolve a Leia algo que Darth Vader havia roubado dela: a possibilidade de saber que, por trás daquele homem que tanto sofrimento causou, seu pai não havia desaparecido completamente.

Mas algo acontece: eles se reconhecem. Mesmo Lea, de alguma forma dá-se no alívio da esperança realizada baseada naredenção de seu pai, mesmo diante da morte que honra o histórico que não existiu anteriomente.

E talvez seja justamente essa a mensagem que mais me toca nessa relação.

As famílias também carregam diferenças, ausências, erros, silêncios e traumas. Existem histórias que não podem ser apagadas. Entretanto, reconhecer o passado não significa necessariamente permitir que ele tenha a palavra final.

Luke recebeu algo de todas as figuras paternas de sua vida. Owen lhe deu uma casa. Obi-Wan lhe deu direção. Yoda lhe deu sabedoria. E Anakin, mesmo através de suas próprias falhas, deixou ao filho uma história que Luke escolheu não repetir.

No fim, Star Wars é muito mais do que uma aventura espacial.

É também a história de um filho que continuou enxergando o pai quando todos os outros enxergavam apenas Darth Vader.

E de um pai que, depois de tantos anos escondido atrás de uma armadura, conseguiu finalmente reconhecer o filho, ser reconhecido pela filha — e, através deles, reencontrar a si mesmo.

Talvez seja por isso que essa história continue emocionando tanta gente: porque algumas feridas permanecem, algumas diferenças são enormes e alguns anos nunca poderão ser recuperados.

Mas enquanto ainda houver reconhecimento, amor e possibilidade de escolha, talvez nem toda história precise terminar da maneira como começou.

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Poucas criações artísticas conseguem atravessar décadas mantendo a capacidade de conectar múltiplas gerações através de uma mitologia tão vibrante. O que nasceu em 1977 como um projeto audacioso e incerto de George Lucas acabou transformando para sempre a ficção científica, a tecnologia visual, o comércio cinematográfico e a própria forma de se construir epopeias modernas.
É instigante observar que seu impacto não se limita à cronologia de estreia nos cinemas. A trama percorre eras profundas desse cosmos fictício: parte do esplendor da República, narra sua queda tenebrosa, o nascimento do Império, o vigor da Aliança Rebelde, a darda prática da reconstrução democrática e atinge, por fim, o surgimento da Primeira Ordem em tempos sombrios.

Os dados de direção e bilheteria mostram também a transformação da própria franquia. George Lucas dirigiu A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones, A Vingança dos Sith e o filme original; Dave Filoni comandou o longa animado The Clone Wars; Gareth Edwards assumiu Rogue One; Ron Howard, Solo; Irvin Kershner, O Império Contra-Ataca; Richard Marquand, O Retorno de Jedi; J. J. Abrams abriu e encerrou a trilogia de Rey, enquanto Rian Johnson dirigiu seu capítulo intermediário.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. O Despertar da Força ultrapassou US$ 2 bilhões mundialmente; Os Últimos Jedi, A Ascensão Skywalker, Rogue One e, com relançamentos contabilizados, A Ameaça Fantasma ultrapassaram a barreira do bilhão. O novo The Mandalorian and Grogu, dirigido por Jon Favreau e lançado em 2026, alcançou aproximadamente US$ 345,5 milhões mundialmente até os dados atuais.

Mas comparar apenas dólares seria injusto com os primeiros filmes. Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi nasceram em outra estrutura de mercado, com ingressos muito mais baratos, quantidade diferente de salas e décadas de relançamentos. Seus números nominais não expressam completamente o tamanho de seu público nem, principalmente, sua influência cultural. Uma Nova Esperança, por exemplo, acumula cerca de US$ 775 milhões mundialmente contando suas diferentes exibições registradas.

Três gerações diante da mesma galáxia

Talvez a verdadeira dimensão do público de Star Wars não possa ser colocada numa planilha.

Quem entrou num cinema em 1977 para assistir a Luke olhar para os dois sóis de Tatooine viveu uma experiência diferente da criança que encontrou Anakin em 1999. E ambas são diferentes do adolescente que conheceu Rey em 2015 ou do espectador que acompanhou Din Djarin e Grogu das séries para o cinema em 2026.

Essa é uma das grandes singularidades de Star Wars: seus personagens envelheceram junto com seu público.

A criança que admirava Luke tornou-se pai.

O adolescente que discutia se Vader poderia ser redimido tornou-se avô.

E novas crianças continuam descobrindo aquela mesma pergunta que acompanhava a saga desde o princípio: o que faremos com o poder, o medo, a amizade, a família e as escolhas que recebemos?

É por isso que reduzir Star Wars a naves e batalhas seria compreender muito pouco do fenômeno criado por George Lucas. Sob a superfície da ficção científica encontramos elementos de mitologia clássica, tragédia, romance de cavalaria, western, cinema de samurai e a velha jornada do herói.

Anakin possui algo da tragédia grega: tenta fugir de um destino e, por suas próprias escolhas, contribui para realizá-lo.

Luke possui algo de Frodo, de Arthur e dos grandes personagens de formação: precisa abandonar o lugar seguro para descobrir quem realmente é.

Leia pertence à linhagem das personagens que unem liderança política e coragem pessoal.

Han Solo começa próximo do arquétipo do aventureiro individualista e aprende gradualmente que existem causas maiores do que ele mesmo.

E Vader talvez seja a grande criação dramática da saga porque reúne duas figuras aparentemente incompatíveis: o monstro e o pai.

É isso que explica por que tantas gerações continuam voltando.

Os efeitos especiais mudaram.

Os atores mudaram.

Os diretores mudaram.

Até a maneira de assistir mudou — da grande tela ao VHS, do DVD ao Blu-ray e ao streaming.

Mas a pergunta humana permaneceu.

Quem somos quando precisamos escolher entre o medo e o amor?

Uma pequena curiosidade para os apaixonados pela história da franquia

Além desses longas cinematográficos, existem duas produções televisivas históricas protagonizadas pelos Ewoks: Caravan of Courage: An Ewok Adventure (1984), dirigida por John Korty, e Ewoks: The Battle for Endor (1985), dirigida por Jim Wheat e Ken Wheat. Há ainda o famoso — e bastante peculiar — Star Wars Holiday Special de 1978. Essas produções pertencem à história audiovisual da franquia, mas não integram a atual linha cinematográfica canônica usada acima.

E talvez seja essa a melhor maneira de terminar esta viagem: não contando apenas quantos filmes existem, mas percebendo quantas gerações já se reconheceram neles.

De 1977 a 2026, Star Wars não permaneceu vivo porque nos convenceu de que existe uma galáxia muito distante.

Permaneceu porque, naquela galáxia, continuamos encontrando coisas muito próximas de nós:

pais e filhos, mestres e discípulos, amizade e traição, medo e coragem, queda e redenção.

E enquanto essas questões continuarem humanas, talvez a Força permaneça conosco por muito tempo.

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Os Goonies — das Telas para as Páginas

Existem filmes que pertencem ao seu tempo e existem filmes que, de alguma forma, conseguem carregar o seu tempo para dentro das décadas seguintes. Os Goonies é um desses casos. Lançado em 1985, o filme permanece vivo não apenas porque foi divertido ou porque marcou a infância de milhões de pessoas, mas porque tocou em alguns dos temas mais antigos da literatura e do imaginário humano: a amizade, a passagem para a vida adulta, a descoberta do desconhecido e a necessidade de encontrar coragem justamente quando ainda não sabemos se a possuímos.
Dirigido por Richard Donner, com roteiro de Chris Columbus a partir de uma história de Steven Spielberg, Os Goonies parece, à primeira vista, uma típica aventura juvenil dos anos 1980. Um grupo de amigos encontra um antigo mapa do tesouro e parte em busca da fortuna do lendário Willy Caolho. No caminho surgem túneis, armadilhas, criminosos, cavernas, um navio escondido e perigos que obrigam aqueles garotos a fazer algo que toda boa narrativa de formação exige de seus personagens: deixar de ser exatamente quem eram no início da história.
Essa estrutura é muito mais antiga do que o próprio cinema.
Quando Mikey e seus amigos abandonam a segurança de casa para seguir um mapa, estão repetindo um gesto que encontramos em incontáveis narrativas. Jim Hawkins faz algo semelhante em A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Bilbo Bolseiro abandona sua confortável toca em O Hobbit, de Tolkien, e descobre que existe dentro dele uma coragem que jamais precisaria conhecer se permanecesse em casa. Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain, transformam rios, cavernas e pequenas cidades em territórios onde a infância encontra o perigo e a liberdade.
Os Goonies pertence a essa tradição.
A diferença é que Spielberg, Donner e Columbus transportam esse antigo espírito de aventura para os subúrbios americanos da década de 1980. Não é necessário começar em um reino distante. A aventura pode estar no sótão de casa. Um mapa velho pode transformar o bairro inteiro. Uma passagem escondida pode revelar um mundo que os adultos jamais perceberam.
Talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores forças do filme: ele devolve às crianças o direito de enxergar o extraordinário dentro do cotidiano.
Steven Spielberg já havia explorado esse sentimento em E.T. — O Extraterrestre. Ali, bicicletas, casas suburbanas e crianças comuns tornam-se parte de uma experiência extraordinária. Em Os Goonies, o mecanismo é semelhante, mas não há extraterrestres. Spielberg conseguiu novamente capturar a imaginação infantil — e, dessa vez, sem precisar de ETs.
O extraordinário nasce da própria aventura.
Uma história sobre amizade
Mas o verdadeiro tesouro de Os Goonies nunca esteve dentro do navio de Willy Caolho.
O verdadeiro tesouro é o grupo.
Mikey, Mouth, Data, Chunk, Brand e os demais personagens são completamente diferentes entre si. Há o sonhador, o inventor, o engraçado, o desconfiado, o impulsivo. Eles discutem, exageram, sentem medo e cometem erros.
E exatamente por isso funcionam.
A amizade apresentada em Os Goonies não é uma amizade idealizada entre pessoas perfeitas. É construída a partir das diferenças. Cada personagem possui alguma limitação que precisa ser compensada pela presença do outro.
Esse é um tema recorrente nas grandes narrativas de amizade.
Em O Senhor dos Anéis, Frodo dificilmente chegaria ao fim de sua jornada sem Samwise Gamgee. A missão pode pertencer a Frodo, mas a lealdade de Sam torna possível aquilo que a força individual não conseguiria realizar.
Há uma coincidência quase poética nisso.
O jovem Mikey é interpretado por Sean Astin, que anos depois se tornaria justamente Samwise Gamgee na adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis. Dois personagens separados por universos completamente diferentes, mas unidos por algo semelhante: a convicção de que determinadas jornadas somente podem ser concluídas quando alguém permanece ao nosso lado.
Sam é o amigo que não abandona Frodo.
Mikey é o garoto que insiste em manter os amigos caminhando quando todos parecem prontos para desistir.
Talvez Sean Astin tenha acabado se tornando o rosto de dois momentos diferentes de uma mesma ideia: a amizade como força moral.
A aventura como passagem para a maturidade
Há também em Os Goonies algo que a literatura costuma chamar de narrativa de formação.
Os personagens entram na aventura ainda como crianças protegidas pelo pequeno universo de suas famílias e de seu bairro. Quando atravessam os túneis, enfrentam os Fratelli e finalmente encontram o navio, já não são exatamente os mesmos.
A aventura funciona como uma espécie de fronteira.
De um lado está a infância.
Do outro, a consciência de que o mundo possui perigos reais e de que nossas escolhas possuem consequências.
É algo semelhante ao que encontramos em muitas histórias de iniciação. Em As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, crianças atravessam uma passagem para outro mundo e descobrem responsabilidades que seriam impensáveis em sua vida cotidiana. Em O Hobbit, Bilbo retorna para casa fisicamente semelhante ao hobbit que partiu, mas profundamente transformado pela experiência.
O herói volta ao mesmo lugar.
Mas já não é o mesmo indivíduo.
Os Goonies também retornam.
E isso talvez explique por que o filme toca tão profundamente aqueles que o assistiram quando jovens. Muitos espectadores cresceram junto com aqueles personagens.
A ameaça de perder o próprio mundo
Existe ainda um elemento que torna a aventura mais significativa.
Os garotos não procuram simplesmente ouro porque desejam ficar ricos.
Suas famílias estão ameaçadas de perder suas casas.
O tesouro representa a possibilidade de preservar o lugar onde cresceram.
Isso muda completamente o significado da busca.
A aventura passa a ser também uma tentativa de impedir que o mundo da infância desapareça.
Nesse sentido, o mapa de Willy Caolho conduz não apenas ao ouro, mas a uma pergunta que todos enfrentamos em algum momento:
é possível conservar aquilo que amamos quando o tempo começa a transformar tudo?
Talvez seja essa uma das razões pelas quais Os Goonies tenha envelhecido tão bem para quem o assistiu nos anos 1980 e 1990.
Hoje, muitos daqueles jovens espectadores possuem entre 30, 40, 50 ou 60 anos. Tornaram-se pais, mães, profissionais, talvez até avós. Mas basta ouvir o nome do filme para que alguma porta da memória se abra.
Voltamos às bicicletas.
Ao mapa.
Às cavernas.
Ao navio.
E aos amigos.
Do cinema para a literatura
A história também encontrou outro caminho: saiu das telas e chegou às páginas.
A novelização escrita por James Kahn permite uma experiência curiosa para quem conheceu primeiro o filme. Normalmente pensamos que o cinema adapta a literatura. Aqui, para grande parte do público brasileiro, aconteceu justamente o contrário: primeiro conhecemos os Goonies através da tela; depois tivemos a oportunidade de reencontrá-los através da leitura.
A edição brasileira publicada pela DarkSide é especialmente interessante porque trata o livro não apenas como produto derivado de um filme famoso, mas como parte da memória cultural daquele cinema.
E isso combina muito bem com a proposta editorial da editora.
A DarkSide compreendeu algo importante sobre determinados leitores: às vezes não compramos apenas uma história.
Compramos também uma memória.
A qualidade gráfica, o cuidado com a apresentação, o projeto físico do livro e sua relação com a cultura cinematográfica transformam a edição em um objeto que dialoga diretamente com aqueles que cresceram assistindo ao filme.
É quase como guardar um pequeno pedaço daquela aventura na estante.
Uma geração inteira dentro de um filme
Talvez por isso Os Goonies seja tão difícil de analisar somente como produto cinematográfico.
Ele se transformou em memória geracional.
Assim como De Volta para o Futuro, E.T., Indiana Jones e tantos outros títulos daquele período, o filme representa um momento em que a aventura juvenil possuía uma característica muito particular: as crianças tinham liberdade para explorar o mundo.
Elas andavam de bicicleta.
Entravam em lugares onde não deveriam entrar.
Tomavam decisões sem esperar que um adulto resolvesse tudo.
Erravam.
E aprendiam.
Hoje, quando reencontramos essas histórias, talvez exista também alguma nostalgia por uma infância percebida como mais livre e menos controlada.
Isso não significa que aquela época fosse necessariamente melhor.
Significa apenas que o cinema construiu uma representação da infância capaz de permanecer na memória de uma geração inteira.
Por que Os Goonies me marcou
No meu caso, porém, existe algo ainda mais pessoal.
Os Goonies me marcou profundamente pela força da amizade e pela própria ideia da aventura.
Sempre gostei de histórias nas quais pessoas comuns atravessam uma porta e descobrem que o mundo é muito maior do que imaginavam.
Talvez seja uma das razões pelas quais gostamos tanto de livros.
Abrir um livro também é seguir um mapa.
Não sabemos exatamente para onde seremos conduzidos.
Podemos encontrar mundos extraordinários, ideias desconfortáveis, personagens inesquecíveis ou até partes de nós mesmos que ainda não conhecíamos.
Os Goonies encontram um mapa no sótão.
Nós encontramos mapas nas páginas.
E ambos podem nos levar a lugares inesperados.
Continuação, sim. Repetição, não.
Há décadas os fãs imaginam como seria reencontrar aqueles personagens.
Eu gostaria muito de ver um segundo filme.



































Mas preferiria uma continuação verdadeira a um remake.
Não gostaria simplesmente de assistir a outros atores repetindo a mesma aventura. O primeiro filme já existe e continua funcionando.
Seria muito mais interessante descobrir o que aconteceu com aqueles garotos.
Quem eles se tornaram?
Continuaram amigos?
A vida os separou?
Ainda conseguem reconhecer uns nos outros aqueles adolescentes que entraram um dia em busca do tesouro de Willy Caolho?
Talvez até seus filhos pudessem encontrar um novo mistério, obrigando aquela antiga turma a perceber que algumas aventuras não pertencem exclusivamente à juventude.
Isso permitiria ao filme falar novamente sobre aquilo que sempre esteve em seu centro:
amizade, memória e passagem do tempo.
Porque talvez o verdadeiro significado de uma continuação de Os Goonies não seja simplesmente descobrir outro tesouro.
Seria descobrir se, depois de quarenta anos, aqueles amigos ainda conseguem encontrar uns aos outros.
E talvez esteja justamente aí o motivo pelo qual o filme continua tão querido.
O navio pirata era extraordinário.
O tesouro era fascinante.
As cavernas eram inesquecíveis.




















Mas aquilo que realmente queríamos encontrar quando éramos jovens talvez fosse muito mais simples:



















Curiosidade — Os Goonies e Stranger Things

A relação entre Os Goonies e Stranger Things é quase imediata para quem conhece bem o cinema dos anos 1980. A série dos irmãos Duffer recupera aquele mesmo universo de amizade juvenil, bicicletas, mistério, perigo e aventura vivida longe do olhar dos adultos. Nos dois casos, o grupo funciona como uma pequena comunidade: cada personagem possui qualidades, medos e limitações diferentes, e justamente por isso a força está no conjunto. O espírito de companheirismo, a coragem diante do desconhecido e a ideia de que crianças comuns podem enfrentar situações extraordinárias aproximam fortemente as duas obras.

Há também uma semelhança na maneira como o cotidiano é transformado em território de aventura. Em Os Goonies, um bairro, um sótão, um mapa e túneis escondidos são suficientes para abrir a porta para outro mundo. Em Stranger Things, ruas aparentemente comuns, florestas, laboratórios e casas suburbanas escondem ameaças que ultrapassam a compreensão dos adultos. A diferença é que Stranger Things conduz essa herança para o terror, a ficção científica e o sobrenatural, enquanto Os Goonies permanece mais ligado à tradição clássica da caça ao tesouro e das narrativas de aventura.

Talvez o ponto mais interessante seja perceber como Stranger Things ajuda a provar que o modelo de amizade apresentado em Os Goonies não envelheceu. Décadas depois, uma nova geração continuou respondendo à mesma ideia: jovens imperfeitos, mas profundamente leais, descobrindo que enfrentar o medo é mais fácil quando ninguém precisa enfrentá-lo sozinho. Por isso, mais do que uma simples semelhança estética, existe uma espécie de continuidade cultural entre as duas obras. É como se uma parte do imaginário de Os Goonies tivesse atravessado o tempo e encontrado, em Stranger Things, uma nova linguagem para falar novamente sobre amizade, coragem e descoberta.
amigos com quem valesse a pena viver uma grande aventura.
E, depois de tantos anos, talvez ainda seja exatamente isso que procuramos.
Logo abaixo desta página, assista à minha resenha em vídeo sobre Os Goonies, no canal Virando as Páginas.
Eu sou Armando Ribeiro, do Virando as Páginas. Supere-se, aprenda mais, ler é bom — Virando as Páginas.

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A Felicidade Não Se Compra

 A Felicidade Não se Compra permite conversar com Dickens, Tolstói, o Evangelho, a crítica ao individualismo e até com a ideia moderna de sucesso.

A Felicidade Ainda Não se Compra — ou, ao Menos, Não Deveria

Existem filmes que sobrevivem porque foram tecnicamente extraordinários. Outros permanecem porque tocaram uma verdade humana que continua reconhecível mesmo quando o mundo ao redor mudou completamente. A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life), lançado em 1946 e dirigido por Frank Capra, pertence claramente ao segundo grupo.

Estrelado por James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell e Henry Travers, o filme constrói uma das reflexões mais poderosas do cinema sobre o valor de uma existência aparentemente comum. Stewart interpreta George Bailey; Donna Reed, Mary; Lionel Barrymore é o implacável Sr. Potter; e Henry Travers interpreta Clarence, o anjo enviado para ajudá-lo. (IMDb)

George Bailey passa boa parte de sua vida desejando partir.

Ele quer conhecer o mundo, estudar, construir pontes, erguer grandes obras e escapar da pequena Bedford Falls. Há nele algo profundamente moderno: o desejo de que a vida seja grande, visível e extraordinária.

Entretanto, quase todas as vezes em que surge a oportunidade de realizar seus projetos pessoais, alguma necessidade do outro aparece em seu caminho.

George fica.

Fica para ajudar a família.

Fica para preservar a pequena instituição financeira criada por seu pai.

Fica para que homens e mulheres comuns possam comprar suas casas.

Fica para impedir que Bedford Falls seja inteiramente submetida ao poder econômico do Sr. Potter.

E pouco a pouco acontece algo que George não percebe: enquanto acredita estar adiando sua própria vida, ele está construindo a vida de centenas de outras pessoas.

Essa talvez seja a primeira grande provocação de Frank Capra.

Vivemos normalmente imaginando que nossa história é aquilo que planejamos fazer.

O filme pergunta se nossa história não seria, na verdade, também aquilo que fizemos pelos outros enquanto nossos planos eram interrompidos.

O homem que acredita ter fracassado

Na véspera de Natal, uma crise financeira leva George ao limite.

Ele olha para tudo aquilo que não conseguiu realizar.

Não viajou como desejava.

Não construiu os grandes monumentos que imaginava.

Não acumulou fortuna.

Não se tornou o homem importante que um dia sonhou ser.

E chega à conclusão terrível de que talvez sua existência não tenha valido a pena.

É então que surge Clarence.

O anjo não entrega dinheiro a George.

Não resolve imediatamente sua dívida.

Não lhe oferece uma carreira melhor.

Clarence faz algo muito mais perturbador: mostra a George como seria Bedford Falls se George Bailey nunca tivesse existido.

E nesse momento o filme muda completamente.

George descobre que a importância de uma vida não pode ser calculada somente pelas realizações que conseguimos enxergar.

Existem consequências de nossa existência que jamais conheceremos.

Uma palavra dita no momento certo.

Uma amizade preservada.

Uma oportunidade oferecida.

Uma pessoa ajudada.

Uma criança protegida.

Um gesto aparentemente insignificante pode atravessar décadas sem que aquele que o realizou tenha consciência de sua dimensão.

Dickens, Capra e a possibilidade de enxergar a própria vida

É difícil assistir ao filme sem lembrar de Charles Dickens e Um Conto de Natal.

Ebenezer Scrooge precisa ser retirado de sua percepção limitada da realidade para finalmente enxergar sua própria existência de outra maneira. Os fantasmas mostram aquilo que sua obsessão pelo dinheiro havia tornado invisível.

Capra realiza movimento semelhante.

Mas existe uma diferença interessante.

Scrooge precisa descobrir o mal que causou.

George Bailey precisa descobrir o bem que fez.

Um homem precisa compreender que viveu egoisticamente.

O outro precisa compreender que uma vida dedicada aos outros não foi uma vida desperdiçada.

Nos dois casos, porém, existe a mesma pergunta:

O que aconteceria se pudéssemos observar nossa existência de fora?

Talvez descobríssemos que algumas coisas consideradas enormes eram pequenas.

E que algumas coisas que julgávamos pequenas eram gigantescas.

Tolstói e a ilusão do sucesso

Há também algo de Tolstói nessa história.

Em A Morte de Ivan Ilitch, um homem aparentemente bem-sucedido chega ao fim da vida e começa a suspeitar que toda sua concepção de sucesso talvez estivesse equivocada.

Ele possuía posição.

Prestígio.

Carreira.

Reconhecimento social.

Mas diante da morte essas coisas começam a perder significado.

George Bailey vive o drama inverso.

Ele acredita ter fracassado justamente porque não conquistou muitos dos símbolos externos de sucesso.

Clarence precisa mostrar-lhe que talvez tenha construído algo mais importante.

Tolstói e Capra chegam, por caminhos diferentes, a uma pergunta parecida:

como sabemos que uma vida foi bem vivida?

Pelo dinheiro?

Pela fama?

Pelo cargo?

Pelos bens acumulados?

Ou pelas pessoas cuja existência se tornou melhor porque passamos por ela?

Potter e a lógica do mundo

O Sr. Potter é fundamental porque representa muito mais do que um simples vilão.

Ele é a perfeita tradução de uma determinada visão da sociedade.

Para Potter, tudo possui preço.

Casas são ativos.

Pessoas são clientes.

Necessidades são oportunidades de lucro.

A vulnerabilidade humana pode ser explorada.

George representa exatamente o oposto.

Para ele, uma casa não é apenas propriedade.

É o lugar onde alguém cria os filhos.

Onde uma família comemora aniversários.

Onde pessoas envelhecem juntas.

A diferença entre os dois homens não está apenas no modo de administrar dinheiro.

Está na maneira como enxergam seres humanos.

Por isso o conflito entre Bailey e Potter continua tão atual.

Ele é o conflito entre duas formas de compreender a sociedade: uma baseada exclusivamente na vantagem individual e outra que admite responsabilidade comunitária.

Uma crítica ao nosso conceito de sucesso

Talvez o filme seja ainda mais provocador hoje do que em 1946.

Vivemos numa época em que o sucesso precisa frequentemente ser exibido.

A viagem precisa ser fotografada.

A conquista precisa ser publicada.

A felicidade precisa parecer extraordinária.

Seguidores, patrimônio, alcance, aparência e reconhecimento tornaram-se medidas públicas de valor.

É possível até transformar a própria felicidade numa espécie de produto.

Precisamos parecer felizes para convencer os outros — e talvez a nós mesmos — de que somos.

George Bailey seria um péssimo personagem para essa lógica.

Durante boa parte da história, ele não tem nada de espetacular para mostrar.

Ele simplesmente trabalha.

Cuida da família.

Ajuda vizinhos.

Resolve problemas.

Abre mão de vantagens.

Permanece presente.

E é justamente essa normalidade que Capra transforma em heroísmo.

A grandeza das pequenas fidelidades

Existe uma ideia profundamente cristã nisso.

A grandeza nem sempre está associada ao palco.

Há uma ética bíblica segundo a qual servir possui um valor que o poder nem sempre compreende.

O próprio Cristo inverte repetidamente a lógica habitual da grandeza: aquele que deseja ser grande deve aprender a servir.

George Bailey não é apresentado como santo.

Ele se irrita.

Perde a paciência.

Fica frustrado.

Experimenta ressentimento.

E chega a acreditar que seria melhor não existir.

Por isso funciona tão bem como personagem.

Sua bondade não nasce de perfeição.

Nasce de inúmeras pequenas decisões tomadas ao longo dos anos.

E talvez seja exatamente assim que a maior parte das vidas seja construída.

Não através de um único momento extraordinário.

Mas através de centenas de fidelidades quase invisíveis.

A comunidade como resposta ao desespero

A cena final é emocionante porque inverte toda a lógica da história.

George passou anos ajudando outras pessoas.

Agora são essas pessoas que aparecem para ajudá-lo.

Uma por uma.

Cada contribuição parece pequena.

Mas juntas tornam-se suficientes.

O que George havia construído durante a vida finalmente se torna visível diante dele.

Não era apenas uma instituição financeira.

Era uma comunidade.

Existe aqui uma ideia que posteriormente seria muito discutida pela sociologia: o chamado capital social.

Uma sociedade não sobrevive apenas através de dinheiro, contratos e instituições.

Ela também depende de confiança, reciprocidade, amizade e redes de cooperação.

George talvez tenha pouco capital financeiro naquele momento.

Mas descobre possuir uma riqueza gigantesca em relações humanas.

Por isso a famosa ideia associada ao encerramento do filme é tão poderosa:

nenhum homem é um fracasso quando possui amigos.

O valor invisível de uma existência

Esse é talvez o aspecto que mais me impressiona em A Felicidade Não se Compra.

George desejava construir grandes coisas.

No final percebe que construiu algo muito maior do que imaginava.

Construiu confiança.

Construiu famílias.

Construiu oportunidades.

Construiu amizades.

Construiu uma comunidade.

Seu nome talvez nunca estivesse gravado num monumento.

Mas sua presença estava gravada na história das pessoas.

Isso me faz lembrar que talvez exista um erro em nossa forma de medir a própria vida.

Contamos aquilo que conseguimos possuir.

Mas raramente conseguimos contar aquilo que significamos para alguém.

Uma resposta à solidão contemporânea

Essa dimensão torna o filme extremamente atual.

Nunca estivemos tão conectados tecnologicamente e, paradoxalmente, a solidão tornou-se uma das grandes experiências contemporâneas.

É possível possuir milhares de contatos e poucas relações profundas.

George vive numa pequena cidade na qual praticamente todo mundo conhece sua história.

Isso possui problemas, evidentemente.

Mas também produz pertencimento.

Quando sua vida entra em colapso, existem pessoas capazes de dizer:

“Esse homem importa para mim.”

Talvez seja essa uma das formas mais profundas de riqueza.

Ter alguém que apareça quando desaparecem as aparências.

Felicidade ainda não se compra

É por isso que gosto de pensar no filme através desta frase:

felicidade ainda não se compra — ou, ao menos, não deveria.

Capra não está dizendo que dinheiro não importa.

O problema de George é justamente financeiro.

Dinheiro paga contas.

Financia casas.

Alimenta famílias.

A ausência dele pode produzir enorme sofrimento.

A crítica é outra.

O filme questiona a transformação do dinheiro em medida definitiva do valor humano.

George necessita de dinheiro.

Potter acredita que o dinheiro define tudo.

Essa diferença é fundamental.

Quando confundimos preço e valor, começamos a imaginar que aquilo que não pode ser contabilizado também não possui importância.

Mas algumas das coisas mais importantes da vida resistem a qualquer contabilidade.

Amizade.

Lealdade.

Presença.

Perdão.

Família.

Gratidão.

O verdadeiro milagre de Bedford Falls

Clarence é um anjo e o filme possui elementos de fantasia.

Mas talvez o maior milagre não seja sobrenatural.

O verdadeiro milagre acontece quando George consegue enxergar a própria vida corretamente.

Nada essencial sobre seu passado mudou.

Ele continua tendo renunciado às viagens.

Os anos continuam passados.

Os sonhos abandonados não retornam magicamente.

O que muda é a interpretação.

Aquilo que ele chamava de fracasso começa a revelar outro significado.

E talvez isso seja profundamente humano.

Muitas vezes não precisamos de outra vida.

Precisamos aprender a enxergar a vida que tivemos.

Uma obra que envelheceu sem envelhecer

Quase oitenta anos depois, A Felicidade Não se Compra continua sendo exibido, discutido e redescoberto porque sua pergunta central permanece intacta.

Quanto vale uma vida?

Frank Capra responde sem recorrer a fortunas, títulos ou monumentos.

Uma vida vale também pelas outras vidas que tocou.

James Stewart transforma George Bailey num personagem inesquecível justamente porque seu drama é reconhecível.

Quase todos carregamos sonhos que não realizamos.

Caminhos que não seguimos.

Portas que não atravessamos.

Talvez por isso seja tão emocionante acompanhar um homem descobrindo que aquilo que deixou de conquistar não anulou aquilo que construiu.

A riqueza que não aparece no extrato

No final, Potter continua sendo financeiramente muito mais rico do que George.

Mas já sabemos quem verdadeiramente possui uma vida abundante.

George está cercado por sua esposa, seus filhos, seus amigos e pela comunidade que ajudou a construir.

Ele finalmente compreende que sua existência deixou marcas que nenhum extrato bancário poderia registrar.

E talvez essa seja a grande lição de A Felicidade Não se Compra.

O mundo continuará tentando nos convencer de que precisamos possuir mais, aparecer mais, vencer mais e demonstrar mais.

Capra responde com algo muito mais simples:

talvez uma grande vida seja aquela na qual nossa presença tornou a existência de outras pessoas um pouco melhor.

E se isso for verdade, talvez existam homens e mulheres aparentemente comuns vivendo vidas extraordinárias sem jamais perceber.

Porque felicidade pode até precisar de dinheiro em muitos momentos.

Mas as coisas que dão sentido à felicidade continuam não estando à venda.

Onde assistir

A disponibilidade nos serviços digitais muda com frequência. No Brasil, a consulta atual do AdoroCinema indica Looke por assinatura, enquanto o PlayPilot registra opção de aluguel ou compra pelo YouTube Movies. (AdoroCinema)

Para quem gosta de mídia física, vale também procurar edições em DVD ou Blu-ray, especialmente porque este é exatamente o tipo de clássico que merece permanecer numa coleção.

E no quadro de vídeo logo abaixo desta página, assista também à minha reflexão sobre A Felicidade Não se Compra, no canal Virando as Páginas.

Eu sou Armando Ribeiro, do Virando as Páginas. Supere-se, aprenda mais, ler é bom — Virando as Páginas.

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