Jirō Taniguchi: o homem que me ensinou a caminhar devagar
Conheci Jirō Taniguchi tardiamente. Talvez algumas descobertas importantes aconteçam assim: não chegam quando as procuramos, mas quando finalmente estamos preparados para recebê-las.
Meu primeiro encontro com sua obra aconteceu por meio de O Homem que Passeia. A leitura parecia simples: um homem caminhava pela cidade, observava as árvores, escutava os ruídos das ruas, percebia os animais e descobria pequenos caminhos. Contudo, à medida que avançava pelas páginas, compreendi que não estava apenas acompanhando um passeio. Taniguchi estava me ensinando outra maneira de olhar para a vida.
Seus quadrinhos não exigiam pressa. Pediam silêncio.
Em um mundo que valoriza a velocidade, Taniguchi desenhava a pausa. Enquanto tantas narrativas procuram impressionar por meio do excesso, ele encontrava grandeza em acontecimentos aparentemente pequenos: uma árvore tocada pelo vento, uma refeição saboreada sem urgência, uma rua desconhecida, uma lembrança familiar ou o reencontro com um lugar que o tempo transformou.
Depois vieram outras obras. Li Os Guardiões do Louvre e acompanhei aquele homem febril atravessando um museu que já não era apenas um edifício, mas um território suspenso entre história, sonho, memória e arte. Sob o olhar de Taniguchi, o Louvre tornou-se um espaço vivo, habitado por artistas, fantasmas e lembranças.
Também li O Gourmet Solitário. Nele, uma refeição cotidiana deixa de ser apenas alimento e se transforma em experiência. O personagem observa o ambiente, escolhe o prato e prova cada sabor com uma atenção que quase perdemos na vida moderna. Taniguchi parecia dizer que viver bem também significa perceber aquilo que estamos fazendo enquanto fazemos.
Em O Diário do Meu Pai, encontrei uma das faces mais emocionantes de sua literatura. A volta ao passado, as lembranças familiares e a tentativa de compreender a figura paterna revelam uma verdade dolorosa: muitas vezes julgamos nossos pais antes de conhecermos suas feridas. Somente quando revisitamos a própria história conseguimos enxergar o amor que permaneceu escondido entre silêncios, afastamentos e gestos que não soubemos interpretar.
Li também Tokyo Killers, suas histórias ligadas à ficção científica e outras obras nas quais Taniguchi demonstrou que sua delicadeza não era limitação de estilo. Ele podia caminhar pelo cotidiano, pelo suspense, pela aventura, pela memória, pela natureza e pelo fantástico sem perder sua identidade. Em todas essas paisagens, permanecia o mesmo desenhista atento ao ser humano.
Seus desenhos possuem uma precisão impressionante. Ruas, edifícios, florestas, montanhas e interiores são retratados com cuidado quase arquitetônico. Entretanto, essa técnica nunca sufoca a emoção. Ao contrário: cada cenário parece guardar alguma coisa que não pode ser inteiramente explicada. Os espaços também contam histórias.
Taniguchi compreendia o valor dos intervalos entre os acontecimentos. Em suas páginas, o silêncio não representa ausência. Ele possui voz, peso e significado. Um olhar pode revelar mais que um longo discurso. Uma caminhada pode assumir a forma de uma oração. Uma refeição pode reconciliar alguém com o presente. Uma paisagem pode despertar uma lembrança que parecia perdida.
Quando soube de sua morte, senti uma tristeza sincera. Eu havia me apaixonado por sua obra tarde demais e ainda desejava acompanhá-lo por muitos outros caminhos. Mas os grandes artistas encontram uma maneira de permanecer. Taniguchi continua vivo cada vez que um leitor diminui o passo diante de suas páginas e percebe algo que antes passaria despercebido.
Falei sobre várias de suas obras no canal Virando as Páginas porque desejava dividir essa descoberta. Recomendar Taniguchi nunca foi apenas indicar um autor de mangás. Foi convidar outras pessoas a experimentar uma literatura capaz de devolver paz, reflexão e humanidade ao cotidiano.
Ele me ensinou que caminhar não significa apenas chegar a algum lugar. Às vezes, caminhamos para aprender a olhar. Para reencontrar uma memória. Para compreender nossos pais. Para perceber o sabor de uma refeição. Para ouvir a cidade, contemplar uma árvore ou descobrir que ainda existe beleza nas coisas pequenas.
Jirō Taniguchi desenhava a vida como quem sabia que nenhum instante deveria ser tratado como insignificante.
Seus livros permanecem diante de mim como caminhos abertos. E sempre que volto a eles, tenho a impressão de ouvir novamente o seu convite silencioso: caminhe mais devagar. Observe. Respire. A vida está acontecendo agora.
Armando Ribeiro
Supere-se, aprenda mais. Ler é bom. Virando as Páginas!


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