Entre mangás, HQs e mundos que nunca me abandonaram
Antes de conhecer os mangás, eu já havia sido conquistado pelas histórias em quadrinhos. Minha imaginação cresceu entre páginas ilustradas, balões de diálogo, aventuras improváveis e personagens que pareciam existir em algum lugar entre a realidade e o sonho.
Os quadrinhos nunca foram, para mim, apenas uma distração. Eles formaram uma espécie de biblioteca paralela: um território no qual o humor, a fantasia, a coragem e até as grandes perguntas sobre a vida podiam surgir em poucas páginas. Cada quadro era uma janela; cada virada de página, a promessa de que alguma coisa extraordinária estava prestes a acontecer.
Muito antes de descobrir a delicadeza narrativa dos mangás, eu ri com Mortadelo e Salaminho. A dupla criada pelo espanhol Francisco Ibáñez transformava qualquer missão numa sucessão de desastres, disfarces absurdos e confusões irresistíveis. Mortadelo parecia capaz de se transformar em qualquer coisa, menos em um agente realmente competente; Salaminho tentava comandar operações que quase sempre terminavam em completo caos.
Eu ria porque aquelas histórias não tinham medo do exagero. O mundo podia estar desabando, o plano podia ter fracassado de maneira espetacular, mas sempre havia espaço para mais uma trapalhada. Mortadelo e Salaminho me ensinaram que o humor também é uma forma de inteligência — e que rir de nossos próprios fracassos talvez seja uma das maneiras mais humanas de continuar caminhando.
Mafalda chegou por outro caminho. Ela também fazia rir, mas sua graça carregava perguntas incômodas. Criada pelo argentino Quino, aquela menina observava os adultos, a política, a desigualdade, a guerra e as contradições da sociedade com uma lucidez desconcertante. Mafalda era uma criança que parecia compreender o mundo melhor do que muitos adultos.
Com ela, descobri que uma tira de poucos quadros podia conter uma crítica social inteira. Seu humor não escondia os problemas; ele os iluminava. Mafalda fazia perguntas que permaneciam dentro de nós mesmo depois que o sorriso desaparecia. Em sua inquietação, havia algo de profundamente ético: o desejo de que o mundo pudesse ser mais justo, mais sensato e mais humano.
Depois vieram os super-heróis. Eles me ensinaram a imaginar cidades ameaçadas, universos paralelos e batalhas nas quais o destino de milhões dependia de uma escolha. Mas, com o tempo, percebi que as melhores histórias não eram aquelas em que o herói simplesmente derrotava o vilão. Eram aquelas nas quais ele precisava vencer o medo, a culpa, a solidão e as próprias limitações.
O Superman me apresentou a força submetida à responsabilidade. O Batman revelou que a dor pode produzir tanto sombras quanto propósito. O Homem-Aranha mostrou que grandes poderes não eliminam as dificuldades da vida cotidiana. A Mulher-Maravilha uniu coragem, compaixão e esperança. Cada personagem, à sua maneira, carregava uma pergunta: o que fazemos com aquilo que recebemos?
Eu cresci acompanhando essas figuras e descobrindo que, por trás das capas, máscaras e poderes extraordinários, existiam conflitos profundamente humanos. Os heróis também erravam, perdiam pessoas, duvidavam de si mesmos e precisavam escolher entre aquilo que era fácil e aquilo que era certo.
Foi então que os mangás chegaram à minha vida e ampliaram ainda mais esse universo. Neles encontrei outro ritmo, outra maneira de organizar o silêncio e de permitir que uma cena respirasse. Descobri que uma história não precisa correr o tempo inteiro; às vezes, ela pode caminhar devagar, observar uma rua, uma refeição, uma paisagem ou o rosto silencioso de alguém.
Os mangás me ensinaram que o vazio entre dois quadros também pode narrar. Uma pausa pode dizer mais do que um longo discurso. Um gesto quase imperceptível pode revelar uma vida inteira. A emoção não precisava ser anunciada; podia surgir delicadamente, como uma lembrança que se aproxima sem fazer barulho.
Foi nesse território que encontrei autores como Jiro Taniguchi. Sua obra me mostrou que os quadrinhos também podiam acompanhar o passo de um homem comum, observar a transformação de uma cidade, contemplar uma obra de arte ou recuperar as memórias de uma família. Taniguchi desenhava o cotidiano com tamanha atenção que uma caminhada se transformava em descoberta e uma refeição solitária adquiria a densidade de um acontecimento.
Apaixonei-me tardiamente por sua literatura visual. Talvez por isso o encontro tenha sido ainda mais intenso. Li O Homem que Passeia, O Homem que Anda, O Gourmet Solitário, O Diário do Meu Pai, Os Guardiões do Louvre, Tokyo Killers e suas incursões pela ficção científica, entre outras obras. Em cada uma encontrei uma forma diferente de silêncio, reflexão e paz.
Quando soube de sua morte, senti a tristeza reservada aos autores que, mesmo sem nos conhecer, passaram a caminhar conosco. Taniguchi sabia desenhar a vida. Seus livros não precisavam gritar para permanecer na memória. Eles nos convidavam a diminuir o passo e perceber aquilo que a pressa costuma esconder.
Ao longo dos anos, falei sobre muitas dessas obras no canal Virando as Páginas. Descobri que compartilhar uma leitura é também prolongar sua existência. Quando contamos a alguém o que um livro despertou em nós, aquela história começa novamente. Já não pertence apenas ao autor ou ao leitor: torna-se parte de uma conversa maior.
Hoje, quando observo minha trajetória, percebo que Mortadelo e Salaminho, Mafalda, os super-heróis e os mestres dos mangás não ocupam compartimentos separados. Todos fazem parte da mesma formação. Uns me ensinaram a rir; outros, a questionar. Alguns despertaram em mim o desejo de justiça; outros me ensinaram a contemplar o cotidiano.
As histórias em quadrinhos nunca me abandonaram porque cresceram comigo. Mudaram de formato, origem e linguagem, mas permaneceram como companheiras. Continuam me lembrando que a imaginação não é uma fuga da realidade. Muitas vezes, é justamente por meio dela que conseguimos compreender melhor o mundo, as pessoas e a nós mesmos.
Entre mangás, HQs, heróis, crianças questionadoras e agentes desastrados, fui aprendendo que cada página pode esconder um universo. Basta abrir o livro, aceitar o convite e permitir que a próxima história nos encontre.
Armando Ribeiro
Supere-se, aprenda mais. Ler é bom. Virando as Páginas!


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